João Pedro Matos

Tesouros da música portuguesa

As invasões dos gaiteiros

Os Gaiteiros de Lisboa constituem excelente exemplo do que deve ser um grupo de música popular portuguesa, porque, na nossa opinião, encontramos nele três aspetos distintos que o definem: autenticidade e variedade na recolha, criatividade ou originalidade, virtuosismo na interpretação. Ao nível da recolha, porque os Gaiteiros percorrem o país de lés a lés, de Trás-os-Montes ao Alentejo, do Ribatejo à Beira Baixa, permanecendo fiéis à tradição e captando o imaginário popular, repleto de lengalengas, devotos, Judas, diabos, falsos cegos, moinhos enfeitiçados, trângulos mângulos, sem esquecer cantos de trabalho, preces ao menino Jesus, Romarias a Ermidas. Os Gaiteiros dizem que são de Lisboa, mas podiam ser simplesmente os Gaiteiros, pois na realidade têm as suas raízes em Portugal.

Ao nível da criatividade ou originalidade, porque as gaitas de foles não passam de um pretexto para divulgar o imenso património musical do país e, em simultâneo, reinventar essa música, com instrumentos alguns deles criados pelos próprios músicos. Há, portanto, uma interpretação nova do material recolhido, onde pontificam os instrumentos de sopro, as vozes e os coros, sem omitir obviamente as percussões. Por último, o virtuosismo da interpretação com momentos primorosos, quando todo o conjunto, instrumentos, vozes e coros dão um novo brilho à tradição, por vezes com sarcasmo e até sentido de humor.

Estas três vertentes fundamentais estão presentes no trabalho de estreia do grupo, intitulado Invasões Bárbaras, datado de 1995, o qual reflete o trajeto dos seus músicos antes de integrarem os Gaiteiros de Lisboa, com especial destaque para a influência que a Sétima Legião teve na génese do projeto. E de bárbaras estas invasões talvez só tenham o nome, dado que antes deveriam chamar-se invasões de civilização: pois haverá algo de mais civilizado do que o património cultural de um povo, as manifestações da sua vida espiritual ou o manancial que reside nos seus hábitos e vida quotidiana, como são os seus cantares de festa e de trabalho? Mas mesmo o bárbaro, segundo Lévi-Strauss, será movido por um desejo de compreender a natureza e a sociedade em que vive. Pelo que o que demarcará o homem culto do mero selvagem é que o primeiro prima de algum modo pela originalidade e cria um património próprio, enquanto que o segundo se dedica apenas à rapina ou ao mero consumo, devastando o que a natureza lhe oferece. O património está aí para o defendermos e protegermos. Mas será um património morto se não o conhecermos. É preciso beber na fonte da sua origem, e o melhor é que nunca se fique saciado. Assim poderá acrescentar-se alguma coisa que a maturidade do tempo lhe empresta, num tempo onde os tempos se voltam a encontrar, reunindo tradições aparentemente distintas, e no entanto tão próximas, como seja um Fandango e um canto da Beira Baixa, como os Gaiteiros o fazem em Fandango/Ai por Cima, ou nos temas O Menino está na Neve e Se Eu Soubesse Que Voando, onde há uma reinterpretação destes temas tradicionais.

Agora que edita-se um álbum que reúne o que de mais significativo os Gaiteiros fizeram ao longo dos seus vinte e dois anos de existência, numa compilação que recebe precisamente o nome de A História, propicia-se a altura de conhecer a obra deste coletivo, mas também o património musical que eles próprios ajudaram a divulgar, na linha do trabalho que foi desenvolvido por Michel Giacometti e Lopes-Graça. Boa música e melhor ano de 2018.


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