José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (219)

A Defesa do Património

Evocação de Santa Maria-a-Velha

Foi aqui que me plantaram

dando-me a primazia

de ser o templo da povoação

que nascia

à sombra do monumento

cuja invocação também me pertencia.

Cumpri a piedosa missão

de ser o panteão

dos mestre maiores que então

em Portugal havia.

Só a ignomínia

dos homens do século Vinte

desrespeitou a minha condição

apagando,

ao apagar a minha memória,

um dos testemunhos irrepetíveis

da Fé, da Arte e da História.

Com que nome hão-de ficar

os que, sem honra nem glória,

me mandaram arrasar?

 

 

Vem este apontamento sobre a defesa do património histórico, arquitectónico, arqueológico, documental, material e imaterial, a propósito da notícia de que a Igreja Velha do Arrimal vai ser restaurada, estando empenhadas nessa louvável acção a Câmara Municipal de Porto de Mós, a freguesia do Arrimal/Mendiga, a paróquia do Arrimal e a população. Na mesma notícia, que li no prestigioso jornal “O Portomosense”, é referido um natural daquele agradável povoação alto-estremenha, Rodrigo Durão Martins, que recuperou diversas peças do espólio do templo e as mostra em exposição pública.

Por sua vez, em notícia publicada no “Região de Leiria” sobre o restauro deste templo, que tinha invocação de Santo António, é apontado o ano de 1775 como o da sua construção. Ora em leitura, talvez feita apressadamente, de “O Couseiro”, pareceu-me que já existia em 1525. Possivelmente estou errado pelo que ficarei grato a quem repuser a verdade, de que aqui darei conta.

De qualquer forma, os meus agradecimentos a Armindo Vieira, Luís Carlos Silva e Rodrigo de Sousa Martins (não é o referido acima), pelas informações que tiveram a amabilidade de me dar.

Ora, a nossa Santa Maria-a-Velha, que foi o primitivo templo da Batalha, erguido pela mesma altura do lançamento da primeira pedra do Mosteiro, não teve sorte idêntica. Nem a qualidade de panteão dos Mestres batalhinos, os maiores do seu tempo, o salvou. A mesma pouca sorte tiveram diversas igrejas pela nossa região e várias estações arqueológicas como a de Collippo e a da Maceira, entre outras. Felizmente, porém, podemos registar a preservação (só refiro algumas) da Igreja Matriz e da Ermida de Nossa Senhora do Fetal no Reguengo do Fetal, de S. Mateus nas Alcanadas, de Nossa Senhora da Conceição nas Brancas (A-das-Brancas), de S. João na Quinta do Sobrado, de Santo Antão (Santo Antão/Faniqueira), das ermidas do Senhor do Aflitos e de S. Bento, na freguesia da Golpilheira.

A estes templos, todos peças importantes do património não só regional mas nacional, não posso deixar de acrescentar a ermida de Santa Maria Madalena, construída em 1571, hoje dentro dos muros do nosso cemitério. Bem próximo do pequeno templo há, também, jazigos, como os da família Sampaio, que deviam ser preservados e cuidados, dado que são pequenas mas expressivas obras dos nossos canteiros. Desconhecendo-se já quem serão os seus proprietários, peço à nossa Câmara Municipal o seu decisivo interesse em encontrar uma solução que os salve da ruína.

Enigmático continua a ser o caso da Quinta da Várzea. Propriedade que foi do nosso Convento Dominicano até 1834, ano em que uma decisão dos liberais, chegados há pouco ao Poder depois de derrotarem os miguelistas, extingue os conventos das Ordens masculinas e expulsa de imediato os frades (os das Ordens femininas mantêm-se até à morte da sua última habitante), esteve cerca de três anos na posse do governo sendo, em 1837, vendido a Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque, que viria a ser, de 1840 a 1844, o restaurador do Mosteiro, que se encontrava em estado que anunciava uma irremediável ruína se não lhe acudissem de imediato. A intervenção salvadora de Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque é resultado da acção enérgica em prol do património nacional levada avante por D. Fernando II, marido da Rainha D. Maria II.

Ora, vem a ser na Quinta da Várzea que em 12 de Novembro de 1855 nasceu o neto daquele notabilíssimo restaurador do Mosteiro, o futuro herói das campanhas em Moçambique, Joaquim Mouzinho de Albuquerque, que tem de ser visto e apreciado à luz do seu tempo e dos interesses africanos que então eram os de Portugal. No fundo havia uma guerra surda entre o nosso País e algumas potências europeias, nomeadamente a Grã-Bretanha e, mais tarde, a Alemanha. Mas isto é matéria que extravasa este breve apontamento.

Voltando à histórica Quinta, hoje do aro da freguesia da Golpilheira, continua sem explicação o que se passou no que respeita à sua classificação como património de interesse público. Disseram-me há anos que ela foi classificada mas que esta distinção, que tornaria obrigatória a sua preservação, não veio a ser publicada no Diário da República. Até porque é um direito nosso, eu e os meus conterrâneos gostaríamos de ser informados sobre a questão.

Na Quinta da Várzea onde há anos tive a honra de acompanhar o notável Historiador e Comunicador, Professor Doutor José Hermano Saraiva, além do solar, um dos poucos existentes na região, há se não estiver já em ruínas, uma ermida que, se não me engano, é da invocação de São Gonçalo. Templo pequeno mas muito expressivo da nossa arquitectura, tinha um alpendre assente em colunas de calcário, colunas que há anos foram roubadas.

Voltando ao Mosteiro onde, como disse no apontamento de Junho, estão a decorrer algumas obras que, creio, beneficiarão o percurso a seguir pelos visitantes, tornarão mais acessível a ida à Loja da Direcção Geral do Património e menos agrestes alguns locais onde os funcionários têm de permanecer durante as suas horas de serviço, recordo que há anos tive acesso a uma fotografia, tirada à volta dos anos sessenta do século XIX, talvez dos fins da década de 50, altura em que foram tiradas as primeiras fotografias ao Monumento, em que se via um campanário nas Capelas Imperfeitas o, que sendo curioso, dado presentemente não existirem vestígios da sua existência, não é impossível. Aliás, a Doutora Maria João Baptista Neto no seu estudo “James Maurphy e o Restauro do Mosteiro de Santa Maria da Vitória no século XX”, obra com especial interesse para quem queira conhecer melhor a história do Monumento, diz sobre as Capelas Imperfeitas: “O campanário que as fotografias e as gravuras demonstram ter existido, junto a estes arcos, no lado norte, foi demolido, provavelmente depois de 1900, já que não encontramos qualquer referência a este acontecimento durante o período que estudámos”. A este assunto, que é importante, tentarei voltar logo que tiver provas que nos esclareçam.

A ilustrar este apontamento uma espectacular fotografia tirada, suponho, pelo piloto aviador Coronel Pinheiro Correia, nos anos 30 do século XX. Vê-se toda a fachada lateral sul do Mosteiro, o patim junto à porta lateral ainda com a grilhagem (outra obra dos nossos canteiros desaparecida), um canto da praça de Mouzinho de Albuquerque e o casario que, a partir, da habitação que é hoje de António da Costa Coelho, foi demolido. A feliz edição foi da responsabilidade da Comissão de Iniciativa e Turismo da Batalha.


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