A Opinião de Carlos Valverde


A vizinha da frente

Em dezembro de 1975 no meu regresso a Portugal, foi das primeiras pessoas da vizinhança com quem privei, ainda jovens. Passados alguns anos voltei à casa de partida e voltámos a cruzar-nos nas mesmas moradas. Na mesma rua, agora canto. Foram 20 anos de uma proximidade diária, frente-a-frente.

Neste meio tempo, fomos cruzando pela vivência quotidiana na vila da Batalha, ora em participações cívicas ora em grupos de amigos, como no teatro, tendo ela também participado nos Jogos Sem Fronteiras pela equipa representante da Batalha.

Como jovem empreendedora, fundou o seu Jardim, com décadas de funcionamento, sobejamente reconhecido pelos pais a quem confiavam as suas crias, premiado por instituições públicas, foi durante largos anos berço de gerações, hoje adultos, cujos filhos trilham os mesmos caminhos dos pais. Era uma pessoa fantástica, reconhecida no meio, pela sua capacidade e dedicação ao trabalho, e era uma vizinha que todos gostariam de ter.

No seu jardim, agora de casa, era usual vermos a extensão do outro Jardim, onde invariavelmente a alegria era contagiante, dona de uma cortesia e de um saber receber, era um gosto tê-la como vizinha. Da mesma forma como corria no dia-a-dia em prol das ‘flores’ do seu Jardim, era igualmente um gosto vê-la por diversas vezes passar e passear com os seus netos, de sorriso largo, qual poço de energia. E porque não as conversas triviais e de ocasião quando nos cruzávamos, até o contentor do lixo ‘nos unia’.

Era uma vizinha das como não se usam, empresária, mãe extremada, avó e cuidadora, ainda jovem resolveu pregar-nos uma partida, melhor, pregaram-lhe uma partida, daquelas que deviam ser proibidas, mas a vida tem estas coisas.

Neste Natal, em que a pandemia mais uma vez nos apagou as luzes da vida, partiste, mas serás sempre lembrada pelos vizinhos, aliás por todos, o teu jardim nunca será o mesmo, mas o teu Jardim irá perpetuar a tua dedicação nesta passagem demasiado efémera em que se tornaram as nossas vidas.

Até um dia destes Isabel.

 

N.R.: Texto escrito em finais de dezembro de 2021

 

 

 

 


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