João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Viagem a Trás-os-Montes

O relevo da geografia transmontana é forte e alteroso, cerzido a granito e xisto com escarpas abruptas onde, no fundo, corre o rio Douro. Uma das mais extraordinárias paisagens que tive oportunidade de contemplar foi a da entrada no rio Douro em Portugal, perto de Miranda do Douro. No alinhamento de várias serras (o Marão à cabeça), a natureza obrigou a erguer trajetos a pique, onde homens, com esforço titânico, trabalham a terra.

Não surpreenderá que Trás-os-Montes possua uma música telúrica, em consonância com as características da sua natureza agreste, por vezes violenta. Naturalmente, a sua música está muito ligada às cerimónias relacionadas com a vida comunitária das pessoas, com os ciclos de nascimento e morte.

Um exemplo emblemático é o dos diversos cantares ao nascimento de Cristo, existindo em Miranda do Douro a curiosa tradição do Menino Jesus da Cartolinha. A própria dança dos pauliteiros é executada especialmente nas festas do Natal e dos Reis.

Interpretada de forma exemplar pelo grupo etnográfico internacional de Duas Igrejas, é uma dança exclusivamente masculina com acompanhamento instrumental (gaita de foles e pandeiro) em que os próprios paulitos batem o ritmo da melodia. Aos pauliteiros está associada a capa de honras, grande capote ricamente ornado. Outro grupo etnográfico de grande e justíssima fama, é o de Barqueiros, no concelho de Mesão Frio.

Já em Mirandela encontramos o extraordinário acontecimento que se realiza todos os anos no primeiro fim de semana de Agosto e que é A Noite dos Bombos. O projeto de fusão Fadomorse, que lançou em 2012 o triplo álbum Magala Invisível e que tem a colaboração da Orquestra Sinfónica Transmontana (dirigida por Hugo Correia), já marcou presença neste evento.

Mas, na atualidade, o coletivo de música popular transmontana com mais relevo é o dos mirandeses Galandum Galundaina, banda criada em 1996 com a finalidade de recolher, investigar e divulgar o património musical, as danças e a língua das terras de Miranda. Uma interpretação de La Lhoba, tema tradicional de Mogadouro, trouxe-lhes o reconhecimento nacional.

De raiz celta, com gaita de foles e forte percussão, uma parte importante dos cantares transmontanos reflete os idiomas locais: o mirandês (relativo a Miranda do Douro), o guadramilês (relativo a Guadramil) e o riodonorês (relativo a Rio de Onor), todos falados na raia transmontana.

As recolhas levadas a cabo no terreno, designadamente as efetuadas por Jorge e Margot Dias, deram a conhecer cantares cuja origem se perde na noite dos tempos e que constituem um vasto espólio que tem sido redescoberto por várias gerações de músicos.

Entre estes cantares, destacam-se pelas versões que têm conhecido mais recentemente, La Çarandilheira, incluída no álbum de Traz os Montes de Né Ladeiras, e editado em 1994; Molinera, música com nova roupagem trazida por o Trovante, no seu disco intitulado 1984. Molinera teve ainda honras de ser cantada de forma magistral por Cristina Branco no seu Corpo Iluminado, trabalho maior datado de 2001. Também a Brigada Victor Jara fez versões de temas tradicionais transmontanos, tais como Marião, Mi Morena e Ó Menino Ó. O Uxu Kalhus cantou a Saia da Carolina e, os Roncos do diabo, tocadores de gaitas de foles transmontanas construídas por Mário Estanislau e Victor Félix, têm interpretado vários números instrumentais, entre eles o da Carvalhesa de Vinhais.

As sonoridades dos grupos Dazkarieh, Sétima Legião e Gaiteiros de Lisboa inspiraram-se, também, na tradição transmontana. Tudo isto demonstra o enorme contributo da cultura popular de Trás-os-Montes para a música portuguesa. Como dizem os Fadomorse, ressuscitem a alma do tempo, em direção ao Nordeste. Molinera teve ainda honras de ser cantada de forma magistral por Cristina Branco no seu Corpo Iluminado, trabalho maior datado de 2001.

Também a Brigada Victor Jara fez versões de temas tradicionais transmontanos, tais como Marião, Mi Morena e Ó Menino Ó. O Uxu Kalhus cantou a Saia da Carolina e, os Roncos do diabo, tocadores de gaitas de foles transmontanas construídas por Mário Estanislau e Victor Félix, têm interpretado vários números instrumentais, entre eles o da Carvalhesa de Vinhais.

As sonoridades dos grupos Dazkarieh, Sétima Legião e Gaiteiros de Lisboa inspiraram-se, também, na tradição transmontana. Tudo isto demonstra o enorme contributo da cultura popular de Trás-os-Montes para a música portuguesa. Como dizem os Fadomorse, ressuscitem a alma do tempo, em direção ao Nordeste.


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