José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (211)

A urbanização da Batalha no século XX (II)

Quarentena

 

Amedrontado e fechado

em prisão domiciliária

à espera que o mundo acabe

ou recomece.

Com a vida encarcerada

nada mais me apetece

do que uma ordem de despejo

nua e crua

e uma licença camarária

para apanhar, em pelote,

banhos de sol na rua.

 

Concluo, neste número a transcrição da exposição enviada em 10 de Outubro de 1936 pelo então presidente da Comissão Administrativa Municipal da Batalha, Dr. José Maria Pereira Gens, ao Presidente do Conselho de Ministros, Doutor António Oliveira Salazar, acerca dum plano de urbanização da nossa Vila:

“VI – Como Executar este Plano:

“Como dissemos deveriam ser adoptados para este caso providências semelhantes às que foram criadas para a Costa do Sol, com a Lei nº 1909, de 22 de Maio de 1935, e o Decreto nº 26762 de 9 de Junho de 1936.

“Ou, sendo mais precisos, os pontos de vista desta Câmara resumem-se no seguinte:

1º - Criação duma Comissão do Ministério das Obras Públicas encarregada da urbanização da Vila da Batalha, a Vila da Victória de D. Manuel I.

2º - Abertura de concurso para apresentação de projectos de urbanização da Vila da Batalha, sobre bases previamente estudadas mas que girariam em volta destes princípios:

Defesa do Mosteiro;

Monumento a D. Nuno Álvares Pereira,

Arrumação da povoação com todos os elementos, arruamentos, jardins, fontes, praça, escolas, quartel da Guarda, Paços do Concelho, Repartições Públicas, Correios e Telefones, Casa do Povo, Bombeiros, campo de jogos, parque de diversões, etc. etc..

Circulação e estacionamento de carros.

3º Execução criteriosa e contínua deste plano garantida com a dotação de algumas centenas de contos, durante alguns anos.

À mesma comissão deveria ser cometida a construção do Monumento da Independência – obelisco a erigir em S. Jorge, no local onde se feriu a grande batalha.

Nos diplomas que regulam a urbanização da Costa do Sol conseguiram-se receitas para fazer face às grandes despesas a efectuar ali.

Pois também aqui na Batalha se pode criar uma fonte importante de receita desde que se cobre uma pequena quantia aos visitantes. E como a Igreja está ao culto, poderia essa importância ser cobrada à entrada dos claustros, parte que nunca visitante algum deixa de percorrer.

“Secretaria da Câmara Municipal da Batalha, aos 10 de Outubro de 1936. O Presidente da Comissão Administrativa Municipal, Dr. José Maria Pereira Gens”.

É curioso verificar que algumas destas sugestões acabaram por se concretizar na década de 60 do século 20, nomeadamente a realização do plano de urbanização com, evidentemente, algumas alterações e a amarga surpresa duma estrada de grande tráfego a curta distância do Mosteiro, do que Salazar também não gostou e desse descontentamento deu fé numa passagem pela Batalha a caminho do seu concelho natal, Santa Comba Dão, onde ia gozar um curto período de férias. O desabafo do Presidente do Conselho de Ministros foi ouvido por alguns batalhenses, que mo confirmaram. Creio que na nossa Câmara está uma cópia duma carta que ele enviou ao secretário ou sub-secretário do Ministério das Obras Públicas, dando-lhe conta da demissão do respectivo ministro, desagradado que ficou com a obra. Mas assuntos desta importância requerem aprofundada investigação. Assim o exige o rigor histórico.

Como vêem, sobre o tema há pano para mangas.

Outra das sugestões que se concretizou e enriqueceu a Vila, sob o ponto de vista artístico e histórico, foi a da erecção da estátua do Condestável D. Nuno Álvares Pereira, obra notabilíssima do grande escultor Leopoldo de Almeida, inaugurada em Abril de 1968, acto que teve a presidi-lo o Presidente da República, Almirante Américo Tomás, e a presença, entre muitas outras entidades, do Doutor Salazar, e de representantes das famílias de Bragança e do Cadaval, descendentes do Condestável.

Dado tratar-se duma estátua equestre, criou-se o mau hábito, entre os batalhenses, de a denominar pela “do cavalo”. Ora, a estátua é a do Condestável D. Nuno Álvares Pereira e assim deve ser designada. O largo onde se encontra é o do Condestável e é interessante referir que a designação, como a do Largo da Vitória, em frente do Mosteiro, foram sugestões, há anos, dos alunos do Agrupamento de Escolas da Batalha.

Do número 1583, de 1 de Maio de 1968, de “O Século Ilustrado”, reproduzo, com a devida vénia, uma imagem das cerimónias da inauguração.

 

Comandante Fernando Bastos

 

Fernando Bastos deixou há pouco o comando do Corpo Activo dos nossos Bombeiros.

Na linha de rumo dos anteriores Comandantes, o primeiro dos quais foi o inesquecível Aurélio Gonsalves, exerceu o difícil cargo com exemplares competência, dedicação e dinamismo e dando valioso contributo para o prestígio da Corporação batalhense, uma das mais conceituadas do nosso País.

A nossa gratidão ao Fernando Bastos e os votos de idêntico êxito para o seu sucessor que, creio, venha a ser o segundo Comandante Hugo Borges.

 

Será o Povo quem mais ordena?

 

Lamentavelmente, no nosso País os referendos são raros. Não podemos, nem devemos, esquecer-nos de que a Constituição nunca foi referendada, o mesmo acontecendo com a inclusão na União Europeia.

Mas são os referendos o instrumento mais democrático porque conferem ao Povo o poder de interferir decisivamente nos actos dos governos. Não há outro instrumento político com esta capacidade.

Os próximos actos eleitorais, seja qual for a sua natureza (Presidência da República, Parlamento, Autarquias), deviam ser aproveitadas para, simultaneamente, se realizarem referendos sobre os assuntos mais diversos, quer de amplitude nacional quer municipal.

Com a Suíça temos de aprender muito nesta matéria.


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