João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Uma guitarra portuguesa universal

Carlos Paredes descendia de uma família de músicos amadores e, à semelhança do seu pai e do seu avô, não quis romper essa tradição. Talvez gostasse demasiado da música que fazia para se tornar profissional. Por isso preferiu continuar a ser arquivador de radiografias no Hospital de São José e espraiar o seu talento genial no tempo que lhe sobejava. Até que, na década de oitenta do século passado, o Ministério da Saúde o dispensou dessa obrigação. Mas nunca deixou de considerar a música que compunha como pequena música, em contraposição com a clássica, essa sim a grande música.

Restava saber se a sua arte, a que se entregava com paixão, era arte popular ou erudita. Além de todos os rótulos, a verdade é que bebeu do filão popular beirão, porque nasceu em Coimbra, e não foi alheio à tradição trovadoresca medieval.

Porém, a música de Carlos Paredes ultrapassa todos os compartimentos estanques de géneros e classificações, e a sua guitarra expressa uma dimensão universal. Não é de estranhar o diálogo que estabelece com outras artes, como seja a sétima arte ou o bailado. Escreveu para realizadores de cinema, entre outros, para Manoel de Oliveira, António de Macedo, José Fonseca e Costa e para o francês Pierre Kast.

Mas foi com Paulo Rocha que teve a colaboração que lhe deu fama internacional, ao assinar a banda sonora do filme Verdes Anos. Datada de 1963, esta película constitui um marco na História do Cinema Português, por fundar o movimento que ficou conhecido por Cinema Novo. Também alguns dos trabalhos de Carlos Paredes foram coreografados e dançados, nomeadamente pelo Ballet Gulbenkian.

Paredes tornou-se um símbolo da cultura portuguesa, porquanto realizou concertos um pouco por toda a parte do mundo: nos Estados Unidos, na China, na Alemanha, na Austrália, na Índia, no Senegal, sem esquecer o Brasil. Igualmente, colaborou com os Madredeus e gravou discos com Charlie Haden (baixista de jazz que foi membro do grupo de Ornette Coleman) e com António Vitorino D’Almeida.

Sem contar com estes discos e um álbum ao vivo em Frankfurt, a discografia de originais de Carlos Paredes resume-se a três discos: o primeiro registo, batizado Guitarra Portuguesa, contou com a participação de Fernando Alvim na viola e viu a luz do dia em 1967; o segundo, na nossa modesta opinião, a sua obra maior, foi lançado em 1971 sob o título de Movimento Perpétuo; e o terceiro, publicado em 1988, chamou-se Espelho de Sons. Mais tarde, em 1996, surgiria uma compilação de temas inéditos que ficaria conhecida por incluir faixas de álbuns que nunca chegaram a ser lançados e que receberia o nome de Na Corrente.

A parcimónia da sua discografia reflete a enorme exigência do músico para consigo próprio, exigência que o conduzia a patamares de excelência cada vez mais elevados. Sobretudo reflete um virtuosismo que, ao contrário de ser uma frio tecnicismo, estava carregado de sentimentos e emoções.

Paredes era um homem que valorizava as relações humanas e a amizade. E um homem de causas. Mas acima de tudo, não obstante a sua lendária modéstia e timidez, ele transfigurava-se quando se entregava à sua arte, principalmente no palco quando se encontrava perante um público que o apreciava. Essa admiração que aqueles que o ouviam tinham por si, deixava-o sempre surpreso e melhor não podia fazer do que retribuir.

E o maior tributo que podemos fazer a este homem, quinze anos depois do seu desaparecimento, é continuar a celebrar a sua obra. Escutando e sentindo a sua grande música que não é de todo pequena. E que tal começar por ouvir o disco Movimento Perpétuo? É o convite que vos faço este mês.


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