Francisco Oliveira Simões

Crónicas do Passado

Uma escola na Escócia

Há umas semanas falaram-me de um anúncio de emprego para trabalhar na Escócia. Tratava-se de uma proposta para exercer as funções de professor de História, integrado numa escola onde poderia ganhar novas competências e crescer intelectualmente, caso conseguisse sobreviver às adversidades. Não dispunha de muitas informações, referentes a esta vaga tão promissora, desta feita, pus pernas ao caminho.

Depois do avião ter aterrado em Londres, segui para a estação de comboios de Kings Cross. Lá chegado, ninguém era capaz de me dizer onde ficava a minha linha. Até que vi gente a atravessar uma parede entre a linha 9 e 10. Parece estranho isto de esconder linhas atrás das paredes, mas deve ser uma prática comum em terras britânicas. Apanhei o comboio movido a carvão e imaculadamente preservado, realmente os ingleses sabem conservar bem o património, temos muito a aprender com eles.

As paisagens verdejantes a perder de vista eram mágicas. Serviram-me uma refeição deveras curiosa. Comi de tudo, só houve uns feijões que me pareceram um pouco indigestos, mas a cozinha inglesa não tem a maior das famas.

Só alcancei o meu destino no alvor da noite. Arranjei um barco e remei até à tal escola colossal e assombrosa, não só na imponência, mas também a nível arquitetónico. Fui recebido por um senhor austero com uma gata assanhada. Encaminhou-me pelos corredores intermináveis e intrincados daquele castelo em estilo gótico, todo iluminado à luz das velas, devem andar a tentar poupar na eletricidade, bem os entendo. A escadaria com incontáveis lances movia-se de forma estranha, são daqueles mecanismos hidráulicos modernos. Portentosa tecnologia. Eu estava maravilhado, como é que nunca ouvira falar antes daquele portento histórico e patrimonial? A escola não tem as melhores condições, ouviam-se ruídos terríveis nas canalizações.

Fui deixado junto a uma sala com uma porta em madeira de carvalho, mesmo ao pé de outro Professor de cabelo louro e ricamente vestido, que também seria entrevistado. Ele meteu conversa comigo, talvez para saber se tinha uma concorrência à altura.

- Também é candidato à vaga para professor?

- Sim, de História.

- Ah! Eu estou candidato à outra. Sabe eu tenho uma vasta experiência e livros publicados na área de especialização. Já deve ter visto a minha cara aí algures.

- Por acaso, não.

Entretanto fomos interrompidos pelo senhor carrancudo e a sua malfadada gata. Transponho a porta da sala e deparo-me com três académicos. Um decano de barba branca longa, um cavalheiro de cabelo preto comprido e uma senhora muito direita de tez sábia. O decano começa.

- Seja muito bem-vindo à nossa escola, agradecemos por se ter deslocado até cá. Foi fácil dar com o castelo?

- Foi muito fácil, não custou nada. Só tive de apanhar um avião, um comboio e um barco a remos, nada mais simples.

- Folgamos em saber, mas se for contratado terá estadia permanente no local de trabalho.

- Mesmo que não seja o mais seguro… - afirmava sombriamente o cavalheiro de negro – Pode-nos falar um pouco da sua experiência profissional?

Contei todo o meu percurso académico e profissional, sem entender se lhes agradava ou não.

- Parece muito interessante a sua trajetória – constatava a senhora.

- Que varinha usa? – perguntava pragmaticamente o mesmo cavalheiro de negro.

- Uma Moulinex.

- Não conheço.

Mas porque diabo queriam eles saber que varinha mágica usava? Até se metem nos meus cozinhados. Confesso que nunca tive uma entrevista tão intrusiva na vida.

- Se gostar de desporto temos um campo à sua disposição, até lhe facultamos uma vassoura – informava o decano de barba longa.

- O meu desporto favorito é a memória – respondi atónito – não varro a poeira da História.

- Vai precisar dela para combater o herdeiro de Salazar.

A conversa era tudo menos normal. Parece que a História de Portugal nos persegue.

- Passando agora para a remuneração. Estamos a falar de um montante na casa dos 500 galeões líquidos por mês, já com estadia e refeições incluídas.

- Quanto é esse valor em euros?

- Agora não tenho bem presente, mas está interessado?

- Sim.

- Tem de saber lidar com criaturas mitológicas e seres sobrenaturais, tem estômago para esse tipo de coisas? – perguntava o cavalheiro de negro – é que no ano passado morreu-nos um Professor e não queremos que se repita, já deve ter visto nas noticias.

- Estou muito habituado a lidar com os alunos difíceis, se é isso que quer dizer. Não li nada sobre isso, realmente não estamos seguros em lado nenhum hoje em dia. Se me é permitido perguntar, como é que morreu esse professor?

- Foi possuído por um senhor, de quem não vou pronunciar o nome, e de seguida morto por um aluno.

- Ah!

- Se não tiver mais nenhuma questão, damos por encerrada a entrevista. Depois receberá uma coruja em casa com a nossa resposta, mesmo que não seja o escolhido.

Ainda não recebi nenhuma coruja na varanda, só os pombos do costume, mas não me parece que queira assim tanto aquele emprego.

 


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