José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (204)

Um Passeio pela Vila (V)

Antes de terminar este breve passeio pela nossa Vila, passeio que teve a intenção de mostrar alguns aspectos menos conhecidos, embora já aflorados anteriormente noutra série dos Apontamentos, vamos dar um salto à Ponte da Boutaca (ou Boitaca), com certeza um aportuguesamento do nome de Boytac, mestre quinhentista das obras do Reino mas que não foi o autor do projecto da ponte, pois faleceu cerca de 1528, mais de trezentos anos antes dela ter sido construída.

É curioso referir que quando dirigiu as obras de restauro do mosteiro, de 1840 a 1844, Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque (recordo: avô de Joaquim Mouzinho de Albuquerque) sugeriu que se aproximasse da Batalha a estrada real de D. Maria I e naquele local fosse construída uma ponte para esse efeito.

A origem de Boytac ainda é para nós obscura, mas esta grafia do apelido sugere-nos a possibilidade de ser francesa.

Como mestre das obras do reino Boytac percorria o país inteiro no cumprimento do seu cargo e pelos serviços prestados nas praças portuguesas do Norte da África, como arquitecto, foi agraciado como alto grau de cavaleiro, distinção relevantíssima naquele tempo para um homem da sua profissão. Mas não dirigiu as obras do nosso Mosteiro, dele só havendo a certeza de um trabalho realizado na Batalha: o pórtico da Igreja Matriz.

Contudo estabeleceu família na nossa vila, ao casar com Isabel Henriques, filha do Mestre Mateus Fernandes, o que pressupõe muitas vindas e estadas aqui.

Sobre Boytac, de que se desconhece também o nome próprio, nada melhor do que consultar o capítulo em que a ele se refere o  notável historiador Professor Doutor Saul António Gomes nas "Vésperas Batalhinas - Estudos de História e Arte, Magno 1997, páginas 169 a 207".

No precioso arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Batalha há elucidativa documentação sobre Boytac que o Professor Doutor Saul António Gomes estudou minuciosamente e neste seu livro refere. Porquê então a designação de Boutaca, aportuguesamento do seu apelido dada à ponte?

Com certeza por o Mestre ter tido ali uma propriedade que popularmente passou a ser conhecida pela Boutaca, mantendo-se o nome até aos nossos dias.

O tabuleiro da ponte está assente em seis elegantes arcos neo-góticos aos quais se acrescentou, no século XX, um sétimo arco mas de volta redonda para ali passar a linha do caminho de ferro do Vale do Lena. Esta linha, recorde-se, ia primitivamente da Martingança só até ao Pinhal Manso, no Noroeste da Batalha onde hoje se situa, sensivelmente, a casa da família do Mestre Alfredo Neto Ribeiro, passando depois por se estender até à Corredoura (Porto de Mós) e às minas da Bezerra. Nas Brancas havia um troço da linha a servir as minas de Alcanadas.

Nos dois extremos da ponte assentes em largos suportes de pedra situam-se quatro casas com a originalidade de as duas do lado Nascente conterem a cozinha e as do lado Poente os quartos.

Aqui residiam os portageiros, de que conheci a neta de um deles (mãe do prezado conterrâneo e amigo Alfredo Belo Monteiro) que viveu na infância numa destas casas. É também curioso referir que ali nasceu a mãe do compositor Belo Marques, parente próximo de Alfredo Monteiro. 

A ponte foi construída no calcário da nossa região, provindo muita da sua pedra do desaparecido claustro de D. João III, que se situava no terreiro Leste do Mosteiro, arruinado pelos invasores franceses em 1810/1811. Tudo me leva a crer que na obra da ponte teria tido intervenção o arquitecto Lucas José dos Santos Pereira, encarregado do restauro do Mosteiro de 1852 a 1884. 

A ponte tem os parapeitos lavrados com ornatos imitando os do Mosteiro e colunelos no mesmo estilo.

É com certeza uma estrutura que pode e deve ter bom aproveitamento com fins turísticos, até porque está a curtíssima distância do Centro de Interpretação da Primeira Posição das Forças Portuguesas na decisiva Batalha Real de Aljubarrota.

A fotografia a ilustrar o apontamento foi tirada por Jaime Costa, que foi proprietário da Foto Vitória.

 


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