João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Um cantor entre Braga e Nova Iorque

No dia vinte e dois deste mês chega às salas de cinema o muito aguardado filme sobre a vida e obra de António Variações, um dos mais importantes cantores portugueses de todos os tempos. Mas como esta rubrica não tem a pretensão de tratar de cinema, vamos cingir-nos a falar de António Rodrigues Ribeiro, de seu nome artístico António Variações.

Nascido no Minho (na aldeia de Fiscal, concelho de Amares) no dia três de Dezembro de 1944, foi o quinto de dez irmãos. Após ter realizado o exame da antiga quarta classe, parte para Lisboa onde arranja trabalho como marçano. A este seguiu-se uma série de outros empregos.

Entretanto, percorre uma boa parte da Europa e absorve o que de melhor se faz lá fora a nível musical, em países como a Holanda, Inglaterra e França. Ouve todo o género de música, desde folclore, do rock ao jazz, porque já havia tomado uma importante decisão: ia tornar-se cantor, custasse o que custasse.

Enquanto compõe e canta, António Rodrigues Ribeiro abre um salão de barbearia no nº 70 da Rua de São José em Lisboa. É na qualidade de barbeiro que trava conhecimento com Júlio Isidro, a quem entrega uma cassete com gravações caseiras. Na sequência deste contacto, aparece no programa de televisão O Passeio dos Alegres, onde interpreta um tema nunca antes editado: Toma o Comprimido.

Trajando um pijama, de brincos e óculos excêntricos, António mostrou-se a um país que não estava habituado a ver nada semelhante. Corria o ano de 1981. Não tardou a lançar o seu primeiro disco, produzido por Ricardo Camacho, músico da Sétima Legião.

É durante a sessão de gravações do single de estreia que expressa o desejo que o som produzido entoe como entre Braga e Nova Iorque. Queria ele dizer que procurava um estilo entre a vanguarda artística e o folclore minhoto. E conseguiu-o. Se a sua voz por vezes dá-nos a sensação que ouvimos Billy Mackenzie, do grupo de vanguarda Associates, os arranjos de algumas das suas músicas evocam os viras e arraiais do Minho (como em Quem Feio Ama… ou em Que Pena Seres Vigarista), porque António nunca rejeitou as suas raízes.

No lado A do seu primeiro single podia ouvir-se Estou Além, que num curto espaço de tempo se tornou num enorme sucesso. E, no outro lado desse disco, encontrava-se uma genial versão de Povo Que Lavas no Rio, fado celebrizado por Amália. Aliás, Amália Rodrigues era uma das suas principais influências; era mesmo a sua musa inspiradora.

Em 1983 lança o seu primeiro trabalho de longa duração, intitulado Anjo da Guarda, que em poucas semanas é galardoado com Disco de Prata. Muita gente aprendeu de cor a cantar É P’ra Amanhã ou O Corpo é que Paga.

No ano seguinte, vem a lume o seu segundo e derradeiro álbum: Dar & Receber, o qual revela uma maior maturidade do cantor. Os arranjos e a produção são mais cuidados, contando para tal com a preciosa colaboração de dois elementos dos então Heróis do Mar: Carlos Maria Trindade e Pedro Ayres de Magalhães.

Mas, mal o disco chegou aos escaparates, e as estações de rádio começavam a divulgar a célebre Canção de Engate, António Rodrigues Ribeiro veio a falecer. Foi no dia treze de Junho de 1984 e contava trinta e nove anos de idade. Alguns anos depois, em dezembro de 1993, ficou pronto um disco de homenagem, onde participaram os Resistência, Delfins, Madredeus, Mão Morta, entre outros. Chamaram-lhe Variações, As Canções de António. E em 2004 foram editadas algumas canções que ele deixara inéditas. O projeto que as editou, sob o nome de Humanos, tinha como protagonistas Camané, David Fonseca e Manuela Azevedo, os quais emprestaram as suas vozes para cantar temas que adquiriram enorme popularidade, tão conhecidos como são Já Não Sou Quem Era, Quero é Viver, Muda de Vida ou Maria Albertina.

Finalmente, no ano de 2006 foi lançada a compilação A História de António Variações – Entre Braga e Nova Iorque, a qual reúne a obra integral deste cantor extraordinário, agora também homenageado através da Sétima Arte.

 


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