João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Três tigres com um guia espiritual

 

Os Três Triste Tigres foram buscar o seu nome a um trava-línguas, àquela parlenda sobejamente conhecida de contar tigres, o que atrapalha a pronúncia de quem conta. É assim uma frase difícil de dizer por causa da semelhança das sílabas, nome que indica logo que os seus músicos não querem transmitir algo aparentemente óbvio, mas um conteúdo mais elaborado. E também revela que os Três Tristes Tigres encaram a música como um jogo, um diálogo de sons em busca de um novo sentido, criando canções que vão em busca de ouvintes que estejam atentos, pelo menos de alguns que entendam a parlenda, tal como dizia Camilo Castelo Branco. Por isso, a música que fazem não é propriamente destinada a massas, pois tem a delicadeza das canções de Schubert ou a crueza dos primeiros discos de Bob Dylan. Contudo, prevalece no universo dos Tigres o mundo da noite e dos sonhos, em que por vezes a realidade é encarada como uma disfunção relativamente ao mundo místico do espírito. Isto está bem patente no álbum Guia Espiritual, produzido há vinte e cinco anos, e em canções como Luna Hotel, Noites Brancas ou em Anormal.

Mas, afinal, quem são os Três Tristes Tigres? A banda é formada por Ana Deus, a antiga vocalista dos Ban; por Alexandre Soares, um dos elementos fundadores do Grupo Novo Rock; e pela poetisa Regina Guimarães. Igualmente, entre 1992 e 1993, integrou o projeto a teclista Paula Sousa, que tinha vindo dos Repórter Estrábico.

Os primórdios dos Tigres remontam a 1987, mas o primeiro álbum é editado apenas seis anos mais tarde, em 1993. Nesta primeira fase, Alexandre Soares ainda não fazia parte do grupo; e foram Ana Deus, Paula Sousa e Regina Guimarães que lançaram Partes Sensíveis, álbum que incluía aquele que ainda hoje é o tema mais conhecido dos Três Tristes Tigres: O Mundo a Meus Pés. Nesse mesmo ano, um disco de homenagem a António Variações recebe o nome de Variações, As Canções de António. Colaboram nele os Madredeus, Delfins, Santos & Pecadores, Resistência, Isabel Silvestre, Ritual Tejo, entre outros. Os Três Tristes Tigres participam com uma belíssima versão de Anjinho da Guarda, onde já entra Alexandre Soares, o qual se apresenta como responsável pelos arranjos da canção.

A partir daí será Alexandre Soares o grande obreiro da sonoridade dos Três Tristes Tigres. Terá a sua prova de fogo no álbum seguinte, o qual verá a luz do dia em 1996. Uma prova absolutamente superada, porque a crítica rendeu-se a Guia Espiritual, para alguns o melhor disco português desse ano. A popularidade do grupo também saiu reforçada, porquanto o tema Zap Canal foi um dos mais divulgados nas rádios nacionais. Mas o importante contributo de Guia Espiritual foi o de abrir pistas e caminhos alternativos para a música portuguesa, pistas que na década de noventa do século passado só iriam adquirir sentido no século seguinte. É o caso da faixa Olho da Rua que pressagia o aparecimento de novos projetos como os Dead Combo, ou da faixa Kindergarten que aponta o rumo da música portuguesa por vias mais experimentais.

No ano de 1998 gravam Comum, o seu terceiro álbum. Destacava-se neste disco a colaboração da vocalista dos Clã, Manuela Azevedo, que emprestou a sua voz no tema Falta (forma). Comum iria marcar um interregno de vinte e dois anos sem editarem qualquer trabalho de originais, interregno apenas quebrado o ano passado (em 2020), com o lançamento de Mínima Luz. Entretanto, Ana Deus e Alexandre Soares editaram uma compilação em 2001, designada Visita de Estudo, e dedicaram-se a um novo projeto: o Osso Vaidoso. Por seu turno, em 2006 Regina Guimarães já havia publicado o livro As Letras como Poesia, onde organizou e analisou as letras que escreveu para os Três Tristes Tigres.

O novo álbum, Mínima Luz, apesar de não constituir porventura o seu melhor registo, preserva todas as qualidades da música dos Três Tristes Tigres e reforça o sentido que este projeto ainda tem no panorama musical português.

 

 


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