Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do Passado

Três homens num caiaque

Um mistério esconde-se nas falésias e dunas das praias deste país. No Oeste, onde a neblina cobre os areais e marés salgadas há vestígios de segredos, que perscrutam nos rochedos e grutas obscuras.

Há uns anos atrás propus-me com dois amigos a empreender uma aventura a bordo de um navio ancestral e com fama odisseica, o temível caiaque Espadarte de Salir, que granjeava uma fama ímpar pelos navegadores mais experientes. Abalámos da costa da baía de São Martinho do Porto pelas 15h00, após um repasto opíparo, providenciado pela boa gastronomia local.

As ondas ondeavam num mar pouco manejável, pungido de rugidos marítimos. A opinião pública conhece demasiado bem os perigos que esta baia oferece (as águas estavam calmas, como de costume, mas tentaremos alimentar a emoção dos leitores).

Rumávamos com a certeza de descobrir tesouros e enfrentar desafios dignos de épicos trágico-marítimos. Já avistávamos as dunas, que se distinguem por serem as maiores de Portugal, e no seu encalço sereias e tritões, habitantes das ruínas da alfândega que lá repousa. Antes de atracarmos, somos arrastados para o Oceano Atlântico, atravessámos a barra e não era fácil regressar à rota estipulada. Até que, através de um raio de sol, nos foi dado ver um velho lobo do mar, refastelado numa rocha a tocar o seu velho violino. Cantava cantigas arcaicas e desvanecidas dos nosso contemporâneos ouvidos cosmopolitas.

- La mer / Qu´on voit danser / A des reflets d´argent / La mer / Des reflects changeants / Sous la pluie…

- Desculpe, velho lobo do mar, almirante da memória, sabe-me indicar a melhor forma de regressar à baía? – perguntei com respeito.

- Je chante / Je chante! / Je chante soir et matin, / Je chante sur mon chemin… - respondeu o arcano sem cessar.

- Mas o cantor ancestral não se cala? – perguntou um dos meus excelsos amigos.

Compreendendo que o artista não se ia conter na sua verve musical, desertámos rumo à baía, mesmo sem grandes coordenadas.

Virámos à direita e eventualmente fomos contra as dunas. A chegada foi um êxito retumbante.

- Francisco, virámos o caiaque! – anunciava cabisbaixo o outro amigo.

- Eu realmente achei que estava frio, mas não tinha conseguido compreender a razão – respondi com espanto.

Deixámos o Espadarte de Salir naquele lindo estado e nadámos até às ruínas da alfândega, onde fomos recebidos pelos ditos tritões e sereias, que nos saudaram na língua deles.

- Que máximo, habitantes locais, posso tirar uma pic? – disse uma sereia já sem a cauda, que abandonou depois de uma story mais original.

Tentámos afastar-nos destes seres míticos, oriundos do longínquo arquipélago do Instagram. Até que uma frase deitada ao vento chamou a nossa atenção.

- Isto é um tesouro que só se encontra nesta terra! – declarava um senhor mais velho a um grupo de convivas que o seguia atentamente.

Ficámos imediatamente alerta, estava ali o famoso tesouro que buscávamos, o segredo escondido nos confins do mar. Seguimos o conjunto de curiosos até chegarmos de novo à costa em frente das ruínas e nos depararmos com este discurso do improvisado guia.

- Eis à nossa frente a argila!

- Está a dizer que podemos encontrar aqui tabuinhas de argila com milénios de existência? – perguntei entusiasmado.

- Melhor do que isso, podemos ver a argila, que cura todas as maleitas do mundo e esse é o maior tesouro que podemos descobrir na vida – respondeu o senhor com grande alarido e entusiasmo.

- Preferia o Épico de Gilgamesh – comentei desanimado.

- Quem é esse Gil?

- Não tem importância, tenha um bom dia! – despedi-me.

Ao voltarmos para o caiaque encontramos sentado na embarcação um sujeito com um traje veranil oitocentista e chapéu de palha a condizer.

- O Senhor sabe que está a incorrer em plágio neste conto?

- Mas quem é o senhor? – inquiri.

- Eu sou Jerome K. Jerome e…

- Pode ficar descansado, porque esta história é apenas uma homenagem ao seu fabuloso trabalho.

- Já ouvi essa desculpa muitas vezes, pretendo receber os meus honorários.

- Com certeza, permita que o levemos até à costa.

- Quanta gentileza, muito obrigado!

Foi, desta forma, que rumámos até ao cais de São Martinho do Porto, sem antes depositar o nosso britânico amigo nuns rochedos para além da barra, mesmo perto de um trovador nosso conhecido.

- Après que les poètes ont disparu / Leurs chansons courent encore dans les rues…

- Eu só queria que me pagassem os direitos de autor.


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