José Travaços Santos

Baú da memória

Tradições da Santíssima Trindade

A Tradição que refiro nestes versos não é o mesmo que tradições. Aquela é o cerne dos países, a razão de ser de um povo, os seus princípios e o guia dos seus propósitos. As tradições são usos e hábitos, uns passíveis de explicação, outros indecifráveis, normalmente repetidos geração a geração, recebidos de fontes milenárias perdidas ou esfumadas no tempo. As tradições são muito próprias da cultura popular, da sua espantosa criatividade ou da sua capacidade de adoptar, de adaptar e de transformar produtos culturais recebidos das mais diversas origens.

Porque nasceram? Como nasceram? Vá lá saber-se. Existem e como são devem ser respeitadas e conservadas. Tirando-lhe agora uma parcela por menos compreensível, tirando-lhe mais tarde outra, acaba-se por as fazer desmoronar.

Ora, isto vem a propósito de me terem perguntado porque motivo na nossa Santíssima Trindade há dois desfiles das “ofertas”, um no sábado após a bênção do pão e outro no Domingo depois da Procissão do Santíssimo. Possivelmente se faria assim porque já, no Espírito Santo de Leiria, e recordamos que a nossa festa da Santíssima Trindade era feita à imitação da leiriense, di-lo “O Couseiro”, havia as procissões do sábado.

Teria o desfile batalhense do sábado sido ocasionado para se depositarem, na Igreja Matriz, as “ofertas” que então não pernoitavam no Mosteiro? Não me parece, porque durante os cerca de cem anos que a nossa Matriz esteve inutilizada para o culto (1834 a 1938), em estado de completa ruina que se agravou com o grande tremor de terra de 1858, não era possível aí acoitar as “ofertas”. E a tradição da “procissão” do sábado não se interrompeu, conforme descrição do Rev.º Padre Dr. Joaquim Coelho Pereira, pároco, de saudosa memória, da Batalha de 1899 a 1929, publicada em “O Mensageiro”, conceituado semanário de Leiria, fundado pelo Cónego José Ferreira Lacerda, no seu número de 5 de Junho de 1926: “(…) o pão e bem assim as merendeirinhas (50) são benzidas no sábado à tarde, depois de recolhidas todas as ofertas na igreja (do Mosteiro). Em seguida sai a procissão das mesmas ofertas dos mordomos (ofertas altas, pães e merendeiras) dando a volta à praça e, passando, desde tempos imemoriais, entre um prédio edificado junto à antiquíssima capela de Nossa Senhora da Vitória (demolida anos depois) e uma oliveira que junto do mesmo prédio se encontra (…). Por sua vez “no Domingo, recolhida a procissão do Santíssimo, forma-se pouco depois a (segunda) procissão das ofertas.

Conforme a fotografia, vinda a lume no nº 13 do “Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais” (Setembro de 1938), dedicado ao restauro da nossa Igreja Matriz que, lembro, era a sede da Confraria da Santíssima Trindade, o templo esteve cerca de um século em completa ruina. Porém, no princípio do século XX, por iniciativa do pároco Padre Dr. Joaquim Coelho Pereira, foi o arruinado campanário substituído pela torre sineira actual. O resto, como a nave sem telhado, manteve-se até ao restauro dos anos 30.

 

Tradição

Tradição
não é folha morta
mas raiz
que nutre de seiva
as árvores frondosas
que só crescem
e florescem
fiéis à matriz. 


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