Francisco André Santos

Diacrónicas

Trabalhar na coffee-shop?

Enquanto procuro emprego outra vez, encontro o Bill, que encontram no artigo “Como chegar aos 100?” ou, do outro lado da rua desse hostel onde eu trabalhava e o conheci. Neste outro lado, fica um hotel onde se hospeda após as regras de estadia temporária o obrigarem a mudar de número nesta noctívaga rua de Roterdão. Apesar de ter muito de personagem, volta aqui a ser referenciado por me ter dado mais um tema: “Francisco, escreve sobre as coffee-shops!”

Escrever sobre as coffee-shops? Talvez não seja a melhor ideia porque as pessoas em Portugal são um bocado conservadoras e pode “ficar mal”. Mas dei-lhe a chance e explorámos o tema: qual a tua primeira experiência com as coffee-shops? Aparentemente, há 12 anos, disseram-lhe para apagar o cigarro - “Mas está toda a gente aqui a fumar!” Não lhe serviram o café. Fazendo as contas, dos 77 anos que o americano tem, podia ter passado alguns anos com os hippies mas não percebeu que o que se estava a vender e fumar era marijuana, ou erva, canhões, ou paivas, ou o que lhes quiserem chamar.

Às vezes fazem-me a mesma jogada que fazia quando conhecia algum holandês. “Portugal é muito conhecido por as drogas serem legais, não é?” Até que sim, mas tal como na Holanda, não é bem assim. Varia, mas com erva, o limite no bolso são 5 gramas. Outros, pegam noutro evento: “já foste ao Boom?” Em contraste com as noticiais portuguesas acerca desse festival sobre os mais de 5 gramas que a policia de tudo e mais alguma coisa encontra – por aqui perguntam me sem esses preconceitos. Denotam-no como um festival humanista e sustentável. Talvez seja coisa de hippies, mas de repente percebo que mais de metade do escritório “smart casual” já foi ao Boom.

Recordo-me desses estereótipos que tinha dos holandeses. Aprendi há muitos anos que para esses essenciais turísticos, basta mudar o sotaque das palavras inglesas e usar o w como v em weed. O que não sabia é que se se trabalhar num escritório, entra-se, compra-se e sai-se da coffee-shop, não vá algum colega passar junto dessas grandes janelas que entre a vida pública e a vida privada, fumegam a transparência dos mexericos. São liberais mas não livres de julgamento. Até que um alemão me diz: “Francisco, há uma vaga na coffee-shop!”

Mas… e seu trabalhar na coffee-shop? Talvez não seja a melhor ideia, mas… Entre lavar pratos, fazer comida em festivais, ou ser guarda noturno, não será mais confortável trabalhar na coffee-shop? Será certamente mais fácil que trabalhar num bar, onde ora afogam as magoas, ora celebram a vida, com a violência ou degustação do álcool.

Acompanhado pelo Maas, irmão por afinidade, peço-lhe um minuto para ir à papelaria. À saída, pergunto-lhe porque é que ficou à porta. Com os seus 11 aninhos, diz-me que não podia entrar. Aparentemente, tinha confundido a papelaria com uma coffee-shop. Sabendo que o pai tem cancro, percebo-lhe o hábito. Deriva dessa droga que serve de medicina, como tantas outras drogas censuradas servem, para a dor que o pai procura aliviar. É aquilo que tem permitido o Maas ter pai há uma série de anos.

Espero que me liguem do hotel, mas se assim não for… trabalhar numa coffee-shop? Será algo entre um bar ou uma farmácia? Porque não? Por favor, livrem me dos meus julgamentos.


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