Francisco André Santos

Diacrónicas

A sorte, formalizada

Com o acabar do meu primeiro mestrado, recebi imensas felicitações. Pelo tempo que o demorei a fazer, comecei a imaginá-lo como uma formalidade. Algo que queria dar por terminado e finalmente passar à próxima fase. Sem querer tirar o mérito à disciplina de Ciência Política, eu já desde pequenino que sou mestre de Pokémon!

Apesar de a minha Avó me ter apelidado de doutor depois de acabar a licenciatura, de certa maneira, abomino a ideia de ser doutor(ado). Volto a associar-me do irrisório: sempre que a Lufthansa ou outra companhia aérea me pergunta pelo meu título no formulário online, entro a bordo com o estatuto de Sr. Dr. No final do dia, consoante investigação científica, um indivíduo não é capaz de ter mais de 150 relações. Para além dessas pessoas com quem conseguimos manter alguma ligação e que nos conhecem, um título será no mínimo semelhante à opção dada num website.

Admitidamente sou um privilegiado. Respeitando a verdade da ciência, admito-lhe a mentira. Além da lógica da razão e as suas aplicações, procuro uma igualdade que não me obrigue à vergonha da minha sorte. Mas do meu pouco mais de metro e meio, continuo a ser obrigado a ver a vida por um canudo, à espera de um lugar, continuando cúmplice da decisão de mais velhos. Por sorte, deverá ser pouca razão de queixa.

Não descuro os conhecimentos que ganhei com os meus estudos. A verdade é que grande parte do material que estudei, há cerca de 10 anos, não estava disponível a toda a gente. A maioria desses livros e ensaios usados na investigação e no ensino são caros. Se bem que nos é dado acesso a esses documentos, às vezes eram um pouco aborrecidos. Recordo-me da surpresa dos meus colegas quando partilhei estudar através de vídeos do Youtube. Na altura, encontrei muitos poucos vídeos sobre a revolução Francesa, mas serviram-me. Nesta altura, não devem faltar opções sobre o assunto.

Era um pouco mais difícil com os ensaios. Como é necessário citar diferentes autores (que pouco ou nada recebem para verem a sua investigação publicada) para se criar e justificar argumentos, acabava por ser frustrante não se ter a possibilidade de pagar e aceder a esses documentos. Mas descobri websites como o Gen.lib.rus.ec e Sci-hub.cc, que me permitiram o acesso gratuito a esses materiais (maioritariamente em inglês). Hoje em dia, completar uma disciplina passa a ser uma formalidade burocrática. Reconhecendo a genialidade da maioria dos meus Professores na transmissão destes mesmos conteúdos, sou obrigado a admitir que esses mesmos materiais que apresentam estão disponíveis na internet. Acedendo aos programas curriculares dessas disciplinas, um grupo de pessoas consegue facilmente organizar a sua aprendizagem.

Também descobri que grande parte do meu futuro está cingido a fazer documentos. Certo que são baseados numa diversidade de métodos e teoria, mas na mesma, documentos: relatórios, teses, cartas de motivação, apresentações, livros, análises, ensaios, e-mails, bases de dados, entre outros. Parece-me que toda e qualquer atividade começa por uma folha em branco em algum programa da Microsoft, que aprendi a usar muito antes da universidade. Não me parece muito difícil, e quando não sei, pergunto ao Google e aprendo a fazer. Talvez tenha facilidade com informática, ou talvez precise mesmo de, no mínimo, uma licenciatura para o efeito.

No meio destas felicitações, visitei o meu Avô no pitoresco Porto do Carro. Talvez tenha achado este novo título esquisito e por isso não tenha feito caso. Sem saber, deu-me a melhor reação que tive, com a minha sorte de voltar a ser o mesmo.

“Ó Francisco, então e quando é que apareces por cá para te ir mostrar os pinhais?”. Cedo, tive que partir para Inglaterra… mas já devia ter aprendido com o meu Avô.

 

 


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