Francisco André Santos

Diacrónicas

Senão antes, no café

O meu caderno está comigo. Imagino-me a ter tempo para escrever o que preciso, mas serve apenas de decoração entre pratos, chávenas e talheres. Do meu canto, olho para dentro da cozinha para perceber se a porcelana limpa é necessária. Não é, e tenho tempo de voltar a instalar a minha pequena revolução que leva os meus colegas com menos inglês do que o meu holandês a cumprimentarem-me com “eh! Francisco! Rock'n'Roll!”. “Zou e Zou”- fixe fixe! Afinal de contas, qual é o lavador de pratos que não se presa à companhia de música?

São 18:00, hora de ponta. Os holandeses que não receberam atendimento imediato atentam aos ponteiros do antigo relógio de parede deste pequeno “pavilhão” histórico junto ao centro de Roterdão. Bem que podem esperar. Os meus colegas estão de ressaca e o sorriso que levam na cara é a única coisa que acrescenta ao ordenado mínimo. Fazemos parte dessa trupe chamada “horeca” – hotel, restaurante, café, bar, em que se partilham histórias de engate, as peculiaridades dos clientes ou os melhores sítios para ir depois do nosso fechar.

Admito muita ironia quando digo a outros para estudarem. Depois de 6 anos de ensino superior, resignei-me a lavar pratos no estrangeiro, onde 3 ou 4 turnos de 7 horas por semana me permitem sobreviver, o que dificilmente poderia fazer em Portugal. Com o resto do tempo, contribuo como posso, offline ou online para projetos em que acredite. Tão útil como agradável seria receber para o fazer, mas até lá testo e defino a minha disciplina. Como em casa confundo o prazer da preguiça com a melancolia, arranjei um escritório (“espaço de co-working”). Aqui, posso ao menos escutar o gosto de dá trabalhar por causas, ainda que considere a quantidade de portáteis da Apple excessiva.

“Não, eu já acabei de estudar.” “Então e o que estás aqui a fazer?” Não tenho grande resposta para dar ao chefe, mas sei que ele podia começar a servir pequenos-almoços ao hotel do lado. Que além dos meus estudos não me definirem uma profissão, resignar-me seria aceitar uma profissão de fato e gravata. Seria aceitar hierarquias falsas, competição no lugar de cooperação, carro em vez de transportes, e trabalhar das 10 às 8, para no final do mês, tentar poupar 200 euros. É aquela precariedade confortável que atribuíram à minha geração, limitada pela sustentabilidade do passado, até que celebramos os 30 com mais um estágio…

“Ele que não pense que faço tudo por um ordenado mínimo.” Existe um certo luxo neste pequeno comentário que repetimos por entre os níveis da hierarquia. Senão antes, no café continuamos a perceber o tipo de trabalho a que nos prestamos, e a cerveja incluída no final do turno, uma oportunidade de sermos um pouco mais humanos.

Pelo menos dois dos cozinheiros querem abrir o seu próprio restaurante. Um outro empregado também quer abrir o seu próprio estabelecimento. Outros estudam e outros tratam o café como casa depois de aqui trabalharem por vários anos. Já o Micha veio para a “Manhattan pelo rio Maas” para ser “rapper”. Começou a servir às mesas 1 mês depois de eu entrar. A única saída é apostar naquilo que sabe enquanto aprende, para poder fazer aquilo que gosta em vez do que precisa. Ficou a pensar no que lhe disse sobre organizar o dia e de como de certa maneira, compete com aqueles que são pagos para se aplicarem diariamente. Precisamos de um plano para não chamar ao café, casa.

Tenho que acabar este texto antes de entrar no turno. Reservo então este parágrafo para agradecer a atenção do leitor às coleções de histórias e lições que organizo para partilhar consigo. Falta-me decidir quando é o meu fim-de-semana e agora tenho que marcar quando janto com o meu colega de casa. Encontramo-nos outra vez para o mês que vem? Senão antes, no café.


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