António Lucas

Ex-presidente da câmara e assembleia municipais

Seca, incêndios e falta de água

Este título retrata três temas candentes da vida de todos os portugueses, de muitos europeus e ainda de uma grande parte dos cidadãos do mundo. São três temas demasiado importantes, para serem esquecidos, para pensarmos que só afetam os outros, ou então para acharmos que só deveremos pensar neles amanhã.

No que respeita à seca, individualmente pouco podermos fazer de significativo. No entanto, se todos fizermos qualquer coisa no sentido da redução das emissões de gases com efeito estufa, estaremos a contribuir para a sua redução global e, por essa via, a contribuir para a minimização do aquecimento global, para a estabilização do clima e assim para que os fenómenos extremos sejam menores e menos frequentes, e o clima regresse a estados anteriores e mais amenos.

Se os cidadãos individualmente se unirem em torno destas preocupações, os governos, pelo menos alguns, terão mais consciência desta problemática e tomarão medidas mais conducentes ao objetivo pretendido.

No que concerne aos incêndios, estão também intimamente ligados às alterações climáticas e a fenómenos extremos, mas muito mais relacionados com a atuação individual do cidadão e com a atuação dos nossos governos. Após um ano extremamente complexo nesta temática, temos assistido a uma enorme publicação de diplomas legais, alguns direcionados para as zonas mais afetadas e outros de caráter mais geral.

Não obstante, a perceção que sobra é a de que se continua a atirar com muito dinheiro para cima da indústria do fogo e muito pouco para soluções de médio e longo prazo, relacionadas com a prevenção e com a sustentabilidade da floresta e do mundo rural. Se uma boa parte deste dinheiro fosse encaminhado para o ordenamento florestal, para criar condições para que o mundo rural não fosse abandonado e para que fosse auto sustentável, então daqui a umas décadas deixaríamos de falar na indústria do fogo e em fogos florestais de grandes dimensões.

A quem não interessa este tipo de solução? A quem muito ganha com a indústria do fogo. A quem interessaria a mudança de paradigma? A todos nós cidadãos deste país. Este tipo de medidas são difíceis? São. São possíveis? São. Interessam ao país? Interessam. Então porque não se tomam? Será muito complicado criar as ZIF e sociedades de gestão florestal em que os proprietários dos terrenos lá inseridos seriam acionistas, sócios, cooperantes, etc. Ficariam na mesma proprietários, mas seria uma gestão técnica e profissional a atuar nesses terrenos em conjunto, de forma ordenado e a quem se pediriam contas pela sua gestão.

Depois de alguns anos, a floresta deixaria de ser um problema, para passar a ser um investimento com retorno, que os proprietários rentabilizariam em seu nome, no nome dos filhos ou dos netos. Quem não quisesse aderir sujeitava-se às regras do plano florestal para a zona, a bem ou a mal, sendo obrigado a manter os seus terrenos limpos e ordenados na exata medida dos terrenos confinantes, geridos pela sociedade de gestão florestal. Será isto tão difícil de fazer? Quem está em melhores condições para iniciar este processo? Sem qualquer dúvida, os municípios. Muitos não avançarão porque dá trabalho, chatices e de início retirará alguns votos.

Tenho esperança que o interesse público apareça antes da politiquice barata e do show off. No que toca a falta de água, devemos todos ter consciência de que a água doce representa apenas 3% das reservas mundiais, e desta, apenas uma parte está disponível para consumo humano. Logo, estamos em presença de um recurso muito escasso. O abastecimento de água potável em Portugal advém essencialmente de duas fontes: captações subterrâneas e de barragens, qualquer delas abastecidas pelas águas das chuvas. Todos temos acompanhado o nível das barragens em grande parte do país, mas pouco se sabe da situação das captações subterrâneas.

Os níveis dos furos, nalgumas zonas, e de acordo com a dimensão e características, demorarão algum tempo a sentir os efeitos da seca, mas senti-los-ão. As barragens sentem-no de imediato. A conclusão imediata, passa por sermos melhores consumidores de água potável e passarmos a ter consciência da sua escassez, consumindo apenas a indispensável. Racionar a água, com já ouvi por aí, será um erro, porque teremos a tentação de encher todos os tarecos à noite, para deitar aquela água fora no dia seguinte, porque as torneiras, correrão normalmente na manhã seguinte.

Aumentar o preço, como também já ouvi, também não será solução, e será injusta, pois os mais penalizados, serão os que têm menor capacidade económica. A solução, é usá-la bem, a começar pelas entidades públicas, que normalmente são grandes consumidoras e a terminar em todos nós e nos nossos consumos domésticos.

Passa também por se fazerem investimentos na substituição das redes mais antigas e por não pavimentar novos vias, ou repavimentar outras, sem a substituição das condutas antigas ali existentes, até porque existem câmaras a perder mais de 50% da água potável introduzida nas redes.

No caso concreto da Batalha, onde já houve perdas de mais de 50%, em 2013 perdíamos pouco mais de 20%. Mas ainda se pode fazer mais. Existem redes muito antigas, que precisam de ser substituídas, devendo ser essa uma das prioridades a colocar no terreno a curto prazo. Sendo estes investimentos sustentáveis e fundamentais, em detrimento de outros, quiçá mais mediáticos, mas muito menos importantes para os cidadãos e empresas.


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