João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Sassetti e o sonho dos outros

 

Se ainda pertencesse a este mundo, Bernardo Sassetti iria completar cinquenta anos de idade no dia vinte e quatro de Junho do corrente ano. Mas a verdade é que Bernardo Sassetti tinha uma auréola de quem transcendia o plano terreno e a música que fazia era de outro mundo. Nascido numa família ligada à música (com ascendência à linhagem dos Freitas Branco), desde cedo tomou gosto pelos estudos clássicos, designadamente através da professora Maria Fernanda Costa, estudos de piano que iniciou aos nove anos de idade. A influência da música clássica estaria sempre presente no estilo que desenvolveria, não obstante ter-se dedicado principalmente ao jazz. O interesse pelo jazz veio pelo convívio com personalidades como Zé Eduardo ou Horace Parlan. Contava apenas dezassete anos quando começa a aparecer em festivais, associado a nomes como Frank Lacy ou Al Grey. Tornou-se músico profissional, tocando piano em vários clubes, integrando o quarteto de Carlos Martins. Nos anos seguintes, Bernardo Sassetti realiza uma importante carreira internacional, porquanto deu concertos por todo o mundo. Concertos onde tocou ao lado de figuras lendárias do jazz tais como Freddie Hubbard, Curtis Fuller, Art Farmer, Eddie Henderson ou Benny Golson. Fez parte do quinteto de Guy Barker, tendo participado na gravação do álbum intitulado Into the Blue, nomeado para a edição de 1995 dos prémios Mercury como um dos dez melhores discos desse ano. Dois anos depois, em 1997, vamos encontrá-lo com um convidado muito especial: o cantor Sting que gravou com a Orquestra Filarmónica de Londres o tema What Love Is.

A discografia de Bernardo Sassetti em nome próprio não é muito vasta, mas abrange alguns trabalhos que, pela sua importância, se devem incluir no melhor que se tem feito no jazz em Portugal. É o caso do álbum Nocturno, lançado em 2002, e que foi distinguido com o Primeiro Lugar do Prémio Carlos Paredes. Nocturno trouxe ao conhecimento do público aquele que é, porventura, o tema mais emblemática de Sassetti: Sonho dos Outros. Igualmente, conquistou os favores da crítica e do público com Alice, banda sonora para um filme realizado por Marco Martins. Datada de 2005, a música de Alice é introspectiva e labiríntica e fala de um homem à procura da sua filha desaparecida. Mas, na realidade, o filme é muito mais sobre um homem em busca de si próprio, um Dédalo à maneira da personagem do livro de James Joyce. O protagonista de Alice anda à deriva ao sabor das imagens, dos instantâneos que as câmaras de filmar que instala na rua captam. Sassetti alimentava uma paixão imensa pelo cinema e pela fotografia, arte que lhe custaria a própria vida: quando andava a fotografar, caiu fatalmente de uma arriba, a dez de Maio de 2012. O seu último disco publicado em vida é datado de 2010, sob o nome de Motion (movimento), evocando precisamente o cinema, a imagem-movimento (um conceito do filósofo Gilles Deleuze). Este disco guarda no interior do seu invólucro uma série de trabalhos de arte fotográfica da autoria de Bernardo Sassetti, e que são absolutamente notáveis. Também para o cinema participou na composição da banda sonora do filme O Talentoso Mr. Ripley, realizado por Anthony Minguella, para o qual interpretou, entre outros temas, My Funny Valentine. Ainda gravaria um disco, no ano de 2011, em parceria com Carlos do Carmo.

Já em 2006 havia sido agraciado com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique.

O legado de Bernardo Sassetti permanece bem vivo, como o demonstra o lançamento em 2019 de um novo álbum, intitulado Solo. E, ao que consta, outros álbuns serão editados. A Casa Bernardo Sassetti tem sabido gerir, não só o património do genial pianista, como regularmente promove concursos para novos talentos na área da composição. Da terceira edição do Prémio de Composição Bernardo Sassetti, saiu vencedor o músico Samuel Gapp com a Suite por M. R., já disponível em disco e altamente recomendável.


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