Patrícia Moreira

Médica interna da USF Condestável, Batalha

“São os meus bicos de papagaio, Sr. Dr.!”

Certamente será caso para dizer que, quem nunca teve umas dores de costas, que atire a primeira pedra (se se conseguir baixar para a apanhar, claro está). A lombalgia constitui importante problema de saúde pública, afetando grande parte da população em idade ativa, conduzindo ao absentismo laboral e quebra significativa da produtividade. Estima-se que até 80% de todos os adultos terão, pelo menos numa ocasião, lombalgia durante a sua vida, sendo uma das queixas mais frequentes na consulta de Medicina Geral e Familiar.

Mas afinal, o que é isto de “lombalgia”? A lombalgia pode ser definida como dor ou desconforto localizado na região lombar, com ou sem irradiação para um ou ambos os membros inferiores. O curso da doença e a morbilidade associada à dor lombar é amplo, sendo que, para muitos doentes, os episódios de lombalgia são autolimitados e resolvem-se sem tratamento específico; para outros, no entanto, a lombalgia é recorrente ou crónica, causando dor significativa que interfere com o emprego e a qualidade de vida. O sucesso de um programa terapêutico depende da correta definição do problema e do cumprimento do tratamento instituído.

Variadas são as causas que podem levar ao aparecimento de lombalgia, sendo que, de todas elas, as músculo-esqueléticas (relacionadas com os músculos e ossos) e as degenerativas (relacionadas com a evolução natural do envelhecimento) são as mais frequentes. Muito raramente, a lombalgia é um prenúncio de patologia grave, incluindo infeção, neoplasia ou outra doença sistémica. Na maioria dos casos, uma história clínica feita por parte do médico é o suficiente para estabelecer a causa da lombalgia, sendo pouco frequente a necessidade de recorrer a exames de imagem ou análises.

Os fatores de risco associados à lombalgia permanecem mal compreendidos, no entanto os mais frequentemente relatados incluem tabagismo, obesidade, idade superior a 45 anos, género feminino, profissões físicas e/ou psicologicamente vigorosas (que exigem esforços físicos importantes ou posturas prolongadas com a coluna em flexão e/ou rotação), sedentarismo, nível educacional baixo, insatisfação profissional e fatores psicológicos como ansiedade, depressão e somatização. As recidivas são frequentes e devem-se, na maior parte dos casos, a sobrecarga ou a má utilização das estruturas raquidianas e paravertebrais.

Posto isto, importante será recordar que “prevenir é o melhor remédio” e, portanto, cabe a todos ter alguns cuidados com a nossa coluna. A realização de exercício físico é essencial para reduzir o aparecimento e recorrência da dor e, mesmo após o aparecimento de uma lombalgia aguda, o repouso relativo não deverá ser superior a dois dias. Após este período, deverá iniciar caminhadas e a restabelecer as atividades da vida diária o mais rapidamente possível. É também essencial o cuidado com a postura, principalmente para aqueles que passem muitas horas sentados, garantindo um bom apoio da coluna e esticando os músculos em intervalos de tempo regulares. Baixar para apanhar coisas do chão deve ser sempre dobrando os joelhos e nunca a coluna. A aplicação local de calor húmido (banho de imersão, por exemplo) tem especial importância na redução do espasmo muscular, porém a utilização de cintas lombares não está recomendada por rotina. Se nada disto ajudar, deve sempre recorrer ao seu médico, que poderá, caso se justifique, encaminhar para fisioterapia ou medicar adequadamente.

Seja como for, há dias que parece que carregamos o mundo às costas. Mas se cuidarmos bem delas, estaremos sempre prontos a movê-lo!


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