Júlio Órfão


Santíssima Trindade nos anos 20 - Tradição que resiste

“Pagando jubiloso tributo à tradição que de longe vem – da época brilhante de El-Rei D. Manuel I – a vila da Batalha mais uma vez se vestiu de galas, para levar a efeito, como conseguiu, com o maior esplendor, a festa da S.S. Trindade, que constitui a preocupação máxima do povo da freguesia que todo se funde, durante os dias dos preparativos, na mesma ardente aspiração de conservar o costume, que atinge as gerações longínquas – como os mortos mandam! – e é preciso conservar”.

É assim que se inicia o artigo, não assinado, publicado no jornal O Mensageiro de 5 de Junho de 1926, na rubrica Tradições Locais, que mão amiga me fez chegar, e elaborado a partir de notas compiladas por um “fervoroso cultor da tradição e regionalista devotado, grande amigo da sua terra que enternecidamente ama, rev. dr. Joaquim Coelho Pereira, digno e zeloso Prior da Batalha”.

Pela leitura do texto do referido periódico pode concluir-se que, no essencial do programa religioso da festa da S.S. Trindade, respeita-se ainda a tradição, pelo menos aquela cultivada nos anos 20 do século passado. Os festejos iniciam-se com a bênção do pão e das merendeirinhas no sábado à tarde, depois de recolhidas todas as ofertas na nave da Igreja do Mosteiro. A procissão tem o seu início logo de seguida, porém o seu percurso apresenta hoje notórias alterações, seguramente resultantes do novo ordenamento do território contíguo ao monumento, consequência do nefasto Plano de Urbanização que na década de 60 varreu do mapa a Batalha antiga.

Para se tentar perceber um pouco esta alteração atente-se no testemunho do Prior da Batalha de antanho: “Em seguida sai a procissão das mesmas ofertas dos mordomos dando a volta pela praça, e passando, desde tempos imemoriais, entre um prédio edificado junto à antiquíssima capela de Nossa Senhora da Victoria (cuja imagem se encontra ainda no Mosteiro, por cima da porta travessa da Igreja) e uma oliveira que junto do mesmo se encontra, sendo a passagem muito acanhada, a tal ponto que as oferteiras e o povo teem de seguir em bicha”.

A que praça se refere o escriba e onde ficaria situada a dita capela de Nossa Senhora da Vitória, são questões que ainda poderão merecer esclarecimento da parte de alguém que, porventura, ainda se lembre. No que se refere à imagem de Nossa Senhora da Vitória, ela ainda se encontra no Mosteiro, no local citado, sendo sempre referenciada como muito antiga e, hoje, a necessitar de cuidados de conservação urgentes.

Na descrição de qualquer festividade cuja origem remonte a tempos muito recuados a lenda ocupa, quase sempre, um espaço privilegiado no desempenho do narrador. A festa da S.S. Trindade não foge a essa regra centrando-se o seu cenário preferencialmente no Mosteiro e nos seus moradores, os frades dominicanos, como podemos concluir da leitura do referido artigo: “Conta-se que um monge (em bom rigor um frade, acrescento) da ordem de S. Domingos a que pertencia o convento, e que tomou parte nessa procissão (no sábado), já do mesmo modo com o trânsito entre a capelinha e a oliveira, e portanto estreito, enfadado e em desprezo da tradição, não cumpriu a praxe, se desviou do trajecto antigo e habitual, recusando-se, com escândalo, a seguir as passadas sempre percorridas, conforme o uso, pelas gerações extintas. Mas o castigo não tardou. O gorgulho, nesse ano, devorou por completo o trigo dos celeiros dos monges, para punir a falta do frade rebelde à tradição. E, acrescenta a lenda, nunca mais os monges do Convento deixaram ao acompanhar a procissão, de seguir pela via estreita e acanhada entre a oliveira e o prédio – ambos existentes – pagando gostosamente – ou com medo do verme roedor do trigo, - tributo aos usos e costumes que o passado legara”.

As cerimónias do Domingo, salvo pormenores, mantêm-se praticamente fiéis à tradição. “No domingo, dia da festa, desde sempre, há missa solene cantada, com exposição do Santíssimo, sermão, e procissão do Sacramento, em que toma parte junto do pálio (cujas varas pegavam as pessoas categorisadas da Batalha) o Imperador acompanhado de dois sacerdotes (padrinhos) que com ele, num estrado no meio da Igreja, assistem à missa, envergando os três a capa de eclesiásticos, e tendo em frente a coroa de prata e que o Imperador transporta em salva ou na cabeça no cortejo religioso. Recolhida a procissão do Santíssimo, forma-se pouco depois, a procissão das ofertas dos mordomos e devotos e é do mesmo modo acompanhada por sacerdotes, e passando pelo chamado Carvalho do Outeiro, de cima do qual são lançadas ao povo, com gaudio do rapazio as merendeirinhas que os mordomos mandam coser, e são em grande número, e o povo leva, como recordação, e com a crença de que postas nos celeiros, livram do gorgulho…”

Quanto à lenda associada ao lançamento das merendeirinhas no alto do Carvalho do Outeiro, “cheia de pitoresco e adorável ingenuidade” ela confunde-se, pela sua origem e intervenientes com aquela associada à procissão de sábado, questionando-se até se não será a mesma embora recriada, no imaginário popular, em tempos e circunstâncias diferentes. Atualmente a única lenda que persiste é somente aquela que nos conta que as formigas em determinada altura entraram nos celeiros conventuais e destruíram o sustento dos frades que, desesperados e procurando resolver o problema, prometeram fazer uma festa anual à S.S. Trindade, qual tributo pago às formigas. No ano seguinte à promessa ao lançarem as merendeiras no alto do Carvalho do Outeiro as formigas que acompanharam a procissão, por aí se quedaram e nunca mais atacaram os celeiros. Apenas com uma exceção, precisamente no ano em que um frade não cumpriu a tradição ao não percorrer o trajeto definido que partia, como hoje, do Mosteiro passando pelo Carvalho do Outeiro, topónimo de um outeiro a sul do monumento.

Na 2ª feira, para além da missa rezada a que deve assistir o Imperador, a particularidade hoje perdida, prende-se com a tomada de posse do Imperador para o ano seguinte não havendo na época, pelos vistos, falta de candidatos o que, infelizmente, não acontece hoje.

Para se poder avaliar da importância e da grandiosidade da festa da S.S. Trindade no passado refira-se que o Imperador, ao passar da procissão em frente da cadeia, tinha o privilégio de nela entrar e soltar um dos presos.

Complementando este breve apontamento fica o registo de alguns pormenores relacionados com a festividade da S.S. Trindade realizada nos dias 5, 6 e 7 de Junho ano de 1926.

Foi seu Imperador António Gomes Prior da Golpilheira e a festa foi animada pelas filarmónicas dos Marrazes, do Arnal e Outeiro Grande (Torres Novas) “com agrado da multidão que acorreu a estes afamados festejos”.

Fez o sermão na missa solene o Rev. José do Espírito Santo, pároco do Reguengo do Fetal.

Foi empossado como Imperador para a Festa do ano de 1927 o Sr. Joaquim Ribeiro “abastado proprietário das Brancas de Baixo”.

Nesta festa e cumprindo tradição antiga “cada mordomo devia dar 2 alqueires de trigo em oferta (bolos cosidos), 2 alqueires em pão (distribuía cada um 50 pães aos pobres), dando 2 a cada oferteira dos pães, e merendeirinhas (10); a oferteira dos bolos tem direito a um”.

A título de curiosidade refira-se que no dia da Festa, estando situada mesmo ali ao lado da Capela do Fundador, foi “inaugurada a pensão Ramos, novo estabelecimento de comidas, bem montado e teve farta concorrência”.

E, como epílogo atente-se já na parte final do texto datado 5 de junho de 1926, na exuberância da escrita, eivada de forte sentimento bairrista: ”Em todas as casas é dia solene, preparando-se iguarias mimosas para a família e para as numerosas visitas e conhecimentos que neste dia vêm confraternizar, com regalo dos velhos e alegria dos novos. Sacrificam-se impiedosamente, para as exigências culinárias, os mais anafados viventes que povoam os aviários.

É o contentamento, de todos os modos manifestado. Os rostos ostentam alegrias íntimas, os olhos brilham, os corações exultam.

É o dia grande da Batalha.

Bendita tradição e louvável o bairrismo da terra de Santa Maria da Vitória”.

Que saibamos manter este saudável bairrismo de modo a preservarmos uma tradição que deve orgulhar os batalhenses.


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