João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Rock numa jogada de Mestre

Completa-se neste ano de 2022 o cinquentenário da data de gravação de Mestre, o magnífico álbum de Petrus Castrus. Não obstante ter sido gravado em novembro de 1972, faz todo o sentido desde já recordar a efeméride, na justa medida do que ela representa para a música moderna portuguesa. O disco foi gravado nos lendários estúdios Strawberry, instalados no castelo de Hérouville, em França, os quais eram frequentados por nomes tão importantes da música internacional como os T. Rex, Elton John ou os Pink Floyd. E o grupo Petrus Castrus soube tirar proveito das condições técnicas de excelência que os Strawberry Studios ofereciam, criando um som brilhante e cristalino que faz com que Mestre não pareça ter sido gravado há cinquenta anos. Para os mais curiosos, podemos adiantar que o álbum foi recentemente lançado em vinil, num registo que recupera todas as potencialidades do original. E é essa reedição que temos presente quando agora escrevemos este artigo.

Petrus Castrus era formado pelos irmãos Castro: Pedro Castro, o qual tinha a seu cargo a voz, coros e viola baixo; e José Castro, no piano e xilofone. Integravam também a banda Rui Reis, no órgão Hammond e no cravo; Júlio Pereira (sim, o mesmo do cavaquinho), em viola solo e guitarra acústica de seis cordas; e João Seixas, responsável pela bateria e percussão. Relativamente à sua discografia, precederam Mestre dois trabalhos de curta duração: Marasmo, que tinha apenas três canções, um EP produzido por José Cid; e Tudo Isto, Tudo Mais, outro EP que já revelava que Petrus Castrus estava a criar uma sonoridade completamente diferente daquela que até ali se fizera em Portugal. Mas o seu primeiro trabalho de grande fôlego é Mestre, o álbum de estreia que representa a primeira tentativa de elaborar um álbum de rock progressivo, num país que então (em 1972) nenhuma tradição tinha neste género musical. Cinco anos antes de Mistérios e Maravilhas, dos Tantra, e seis anos antes do lançamento do mítico Dez Mil Anos Depois, Entre Vénus e Marte, de José Cid, Mestre de Petrus Castrus sobrepõe-se mesmo a estes dois pelo seu valor literário, dado que recorre à poesia de importantes autores da língua portuguesa, como são Sophia de Mello Breyner, Bocage, Fernando Pessoa ou Alexandre O’ Neill.

Também a nível musical, Mestre ganha pontos: é verdade que tem óbvias referências ao rock progressivo italiano, o qual marcou toda uma época. Assim, é possível descortinar a influência do projeto Banco del Mutuo Socorso e principalmente dos Premiata Forneria Marconi: não esquecer que o álbum Per un Amico foi lançado em 1972, coincidindo com o ano de gravação de Mestre. Este pode igualmente ser visto como uma mistura de Procol Harum com Emerson Lake And Palmer. Porém, o disco de Petrus Castrus possui uma originalidade própria que o faz destacar-se entre os seus pares: a execução impecável dos instrumentos (piano, órgão e guitarras) e a qualidade das composições tornam Mestre num álbum superlativo: ouçam-se, por exemplo, as faixas Tiahunaco, Porque ou então História do Azul do Mar. E a começar desde logo pela faixa de abertura que dá nome ao disco. Mas, voltando às letras, o poema de Tiahunaco é espantoso e o seu conteúdo pleno de atualidade.

O disco em vinil conta com onze faixas (cinco no lado A e seis no lado B), disco que vai para os escaparates em 1973 com o aval do secretário de Estado da Informação e Turismo. Depois do vinte e cinco de Abril de 1974, o disco não é esquecido e continua a ser divulgado nas rádios nacionais. O grupo realiza nessa altura uma série de concertos, prestações ao vivo que culminam com o lançamento de um novo álbum em 1978, intitulado Ascensão e Queda. Petrus Castrus prossegue a sua carreira com diferentes formações e, em 2007, Mestre conhece a sua edição para uma outra editora. E em boa hora ele voltou a estar disponível para aqueles que queriam conhecer esta obra magna do rock progressivo nacional. Pois se a música fosse xadrez, este álbum seria rock numa jogada de Mestre.

 


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