José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (230)

Recolhas e estudos sobre a nossa região etnográfica

Nos teus olhos

 

Nos teus olhos

há penumbras e claridades,

inquietude como no mar,

desejos pousados como aves

e, escondidas, verdades

que não sei encontrar.

 

Como os olhos das mulheres

escondem o que querem mostrar

e fazem do que revelam

enigmas por desvendar!

A não ser em casos muito específicos, como os das povoações alcandoradas em serranias que noutros tempos eram quase inacessíveis, os cancioneiros, de cariz etnográfico, dizem respeito sempre a regiões que, caso do concelho da Batalha, é a da Estremadura ou mais correctamente o norte da província, a Alta Estremadura que abrange todo o distrito de Leiria e ainda concelhos que pertencem ao distrito de Santarém como Ourém. Mas mesmo este cancioneiro foi permeável, como não podia deixar de ser, às influências de províncias vizinhas. O mesmo sucede com os trajos, os instrumentos musicais, principalmente estes, as danças e com numerosos costumes populares.

Não há trajos, instrumentos, danças, jogos próprios só do concelho da Batalha mas sim da região em que se insere, evidentemente com uma ou outra originalidade.

No respeitante à nossa região tivemos a sorte de contar com investigadores do jaez de um Professor José Ribeiro de Sousa, de um António Oleiro (António Aires Costa Bernardes) e de um Dr. José Alberto Sardinha, o maior etnomusicólogo português da actualidade, e de um trabalho de apoio, no caso do cancioneiro de Ribeiro de Sousa, do maestro Joaquim Vicente Narciso. Recentemente chegou-nos uma obra “Etnografia – Alta Estremadura 1” do Dr. Adélio Amaro, que veio enriquecer a bibliografia estremenha. E, o que não pode cair no esquecimento, houve todo um trabalho, tantas vezes despercebido, um trabalho de raiz dum notável grupo de folcloristas de que apenas registo os já falecidos António Pereira Marques, Francisco Gomes Calado, Manuel Artur Santos, D. Adelina (esposa do Dr. Rui Acácio), Dr. Reinaldo Serrano, António Neves Silva, José Ramos Vaz, Joaquim Cardeira. Houve, com certeza outros, mas ainda não tive possibilidade de obter os necessários dados.

Merecedor igualmente de registo é o trabalho de pesquisa do Dr. Joaquim Ribeiro Gomes Calado, filho do Mestre Francisco Calado, que nos dá a conhecer em dois livros, publicados em 2001 e 2012, respectivamente “Reguengo do Fetal - Contributos para o estudo histórico-etnográfico duma freguesia plurissecular” e “Memoriais do Reguengo do Fetal”, muito da riqueza etnográfica daquela freguesia do concelho da Batalha, onde ainda hoje se realiza uma das manifestações religiosas mais originais e mais belas em honra da Santíssima Virgem, na sua invocação de Senhora do Fetal. Trata-se da procissão que leva a Imagem sagrada da sua capela para a Igreja Matriz, procissão vulgarmente denominada de “procissão dos caracóis” dado que milhares de conchas de caracóis transformadas em lucernas, costume que vem da Idade Média, alumiam o percurso da procissão. É uma manifestação etno-religiosa que merece inteiramente ser classificada como Património da Humanidade.

Os grupos folclóricos da nossa região dispõem sobretudo nas obras do professor José Ribeiro de Sousa (“Cancioneiro de Entre Mar e Serra da Alta Estremadura”, cuja capa ilustra este apontamento), de António Oleiro (“Cancioneiro da Região de Leiria”) e do Sr. José Alberto Sardinha (“Tradições Musicais da Alta Estremadura”), das informações essenciais ao conhecimento e aproveitamento da espantosa riqueza etnográfica estremenha. Consultando-as, estamos sempre a tempo de conhecer a criatividade do povo da nossa província, de emendar os nossos erros e de compreender melhor a herança cultural que recebemos.

 

Tão má como a venda livre das armas, a influência dos filmes televisivos

 

O morticínio, numa escola americana, que recentemente ensombrou uma cidade daquele país e todo o mundo civilizado, veio novamente alertar para a disseminação das armas de fogo e para o negócio que, naquele país, está por detrás da sua venda e do seu fabrico.

Evidentemente que esta venda livre das armas e a liberdade do seu uso propiciam em indivíduos sem formação, sem escrúpulos e frequentemente com problemas mentais, o cometimento de actos de maior desumanidade, difíceis de compreender e de forma alguma passíveis de desculpa.

Mas a liberdade da compra das armas não explica tudo.

Já aqui o disse, o cinema que as nossas televisões projectam e que é visto por toda a gente, bem como os vídeo-jogos, constituem uma aula em que se ensinam, e de forma aliciante, todos os horrores da violência. A morte de seres humanos torna-se um espectáculo empolgante. Que efeitos não terá nas pessoas perturbadas?

Creio que as entidades oficiais têm aqui um motivo extremamente preocupante, a exigir uma vigorosa intervenção e o reforço da educação cívica em todos os graus de ensino.

 

A bárbara invasão da Ucrânia

 

Não há palavras para qualificar a invasão da Ucrânia pelos russos. Nada a desculpa, nada a explica. Como é possível que um grande País como a Rússia, em pleno século XXI, regresse à barbárie doutros tempos e sacrifique um Povo que apenas quer ser livre, senhor dos seus destinos e viver o espírito europeu da democracia e do progresso?

Por magia verdadeiramente diabólica voltámos aos tempos tenebrosos da 2ª Guerra Mundial.

Que podemos fazer?


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