José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (231)

Recolhas e estudos sobre a nossa Região Etnográfica (2)

Canção

(Sobre um poema de João de Deus)

 

A vida,

ai, a vida,

não passa dum grito ou dum ai.

Chega e já lá vai.

É como a estrela que cai,

incendida,

no firmamento infinito.

Chega

e já lá vai.

 

A vida,

ai, a vida,

não passa dum grito ou dum ai.

 

A “Etnografia Portuguesa” do Professor Doutor José Leite de Vasconcelos, obra monumental e preciosíssima para quem queira documentar-se sobre a nossa Etnografia, no seu sexto volume, página 512 e 513, contém um estudo, sobre o vestuário, da Doutora Esméria de Sousa, que suponho ser parente do Professor José Ribeiro de Sousa, elaborada a partir da sua investigação na aldeia da Costa de Cima, freguesia da Maceira, concelho de Leiria, de onde julgo que era natural. Foi entregue na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 11 de Julho de 1916. Transcrevo-a na íntegra:

“O trajo domingueiro das mulheres, usado ainda há uns vinte anos (portanto pelos anos 90 do século XIX), compunha-se de uma saia redonda de farta roda, casaco cintado, capa comprida até aos pés, capa esta que podia ser de pano preto, cinzento ou azul, mas o mais fino era o de pano preto. A capa podia ser simples ou enfeitada à frente com bandas que acompanhavam toda a capa, e atrás terminava em bico. A completar este trajo, usavam um lenço de bretanha.

“Ricos e pobres trajavam assim. A diferença consistia apenas na qualidade do tecido. Nos pés, tamancos ou sapatos, toscamente feitos. Meias só as mais abastadas as usavam.

“As capas, porém, foram sendo postas de parte e hoje já pouco se usam. Só uma ou outra pessoa antiga as usa. O lenço de Bretanha (tecido fino de linho ou algodão) foi substituído pelo lenço de seda, de lã ou, ainda, de chita. Muitas mulheres usam um chapéu de feltro, por cima do lenço, como as Ovarinas. Esse chapéu é mais ou menos enfeitado com uma fivela ou com um feixe de peninhas de cores.

“Também a substituir a capa, usam algumas mulheres uma saia a cobrir os ombros. Essa saia é de chita ou de lã grosseira, tecida em casa.

“O trajo dos homens é também simples. Trajam uma jaqueta curta, calça estreita, em geral de pano castanho-escuro, sapatos ou tamancos, e na cabeça um barrete de lã preta ou um chapéu de abas. Em volta da cintura, uma faixa de lã (cinta), geralmente preta. A camisa é uma camisa vulgar, de riscado. Alguns, porém, trajam um pouco mais à cidade e esses fazem consistir o seu luxo no uso da gravata (lembro que isto se passava já na época em que o trajo camponês começava a perder as suas características).

“Há quarenta para cinquenta anos (cerca dos anos 60 e 70 do século XIX), via-se outro trajo entre os homens mais abastados: compunha-se de uma jaleca, calção um pouco acima do joelho, botas altas a acompanhar os joelhos e a aparecer a meia branca de lã ou de algodão (segundo a estação), por cima da bota. Na cabeça, um chapéu (de aba larga). O calção desapareceu completamente e hoje (1916) nem uma só pessoa se vê assim.

“Também o trajo feminino actualmente (1916) varia conforme as posses de cada mulher. Algumas saias, as das raparigas, são enviesadas, outras de roda farta; os casacos pouco se usam; substituem-nos por blusas. Nos ombros põem um xalinho e, na cabeça, um lenço; nos pés meias e sapatos de cabedal grosso. São as mais jeitozinhas.

“As pessoas mais abastadas, em contacto com a cidade, vão-se apurando na maneira de vestir e o seu luxo consiste num casaco a imitar uma ou outra moda, dentro de certos limites, numa mantilha e um leque e são estas as senhoras da terra. Algumas usam uma mantilha de bico.

“O ouro é pouco usado e isso devido, talvez, à pobreza da terra”.

Outra preciosa informação sobre o trajo da nossa região, é dada também por um aluno do Doutor Leite de Vasconcelos, Doutor Manuel Domingues Heleno Júnior, em Maio de 1917, portanto uma ano depois da comunicação da Doutora Esméria de Sousa, e igualmente publicada na “Etnografia Portuguesa”. Dele se reproduz:

“1 – Homens: No trajo dos homens devemos ainda distinguir o fato do Domingo e o fato da semana. (Refere-se a Monte Real).

“O trajo do domingo consta geralmente de um fato de cotim preto, formado por um casaco curto com os cantos arredondados; por um colete com gola, deixando ver a camisa, quase sempre de riscado, com um colarinho estreito com os cantos arredondados, onde às vezes se nota uma gravata de cores berrantes (recordo que já se estava na época em que o trajo popular se começou a aburguesar) e por uma calças com a forma de boca de sino. O calçado é, em geral, constituído por sapatos de prateleira ou de meia prateleira, e mais raras vezes por botins, usados em geral pelos que são remediados. As meias usam-se ainda pouco. Para a cabeça têm um chapéu de abas largas, a que dão o nome de chapéu fino. Trazem ainda ao Domingo grandes correntes de prata ou ouro, às vezes com um cornicho e também cordões com libras, que prendem de um lado um relógio metido dentro duma bolsa de lã com borlas, e do outro, por vezes um pequeno espelho (…).

Continuarei no próximo mês, se Deus quiser.

 

A imagem a ilustrar o apontamento reproduz aspectos de uma das exposições temáticas do Museu Etnográfica da Alta Estremadura, do Rancho Rosas do Lena, integradas no tema “O Museu Desceu À vila”, mostrando reconstituições dos trajos domingueiros (os trajos de “Ver a Deus”).

 


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