Francisco André Santos

Diacrónicas

Racista? Eu!?

“Eu não sou racista. Eu não sou homofóbico. Até tenho amigos que…” Acho que todos já passamos por situações em que, para nos defendermos, assumimos ter uma amizade com pessoas do tipo X ou Y. Acontece quando nos referirmos a uma questão de identidade assumida pela pessoa a que nos referimos. Ao mesmo tempo, devemos perceber se estamos a usar argumentos que já apresentamos em outras situações. Se a resposta é sim, então o melhor será perceber porque temos a necessidade de nos desculparmos repetidamente.

O preconceito, diria, vem da ignorância e do desconhecimento. De outra maneira não seria possível pré-adquirir noções sobre algo ou alguém que se desconhece. Podemos assumir que somos livres de preconceitos, mas isto será sempre uma interpretação pessoal. A imagem que passamos para os outros - essa está sempre dependente do que é que e como que comunicamos.

Ter um amigo homossexual pode ajudar a entender discriminação mas, não é por termos um amigo homossexual que usa alcunhas mais vulgares, que devemos assumir que o seu uso é e deve ser generalizado. Um amigo meu português a viver aqui na Holanda, fala-me que em Portugal, não é que houvesse racismo, mas que… mas que havia sempre aquele racismo disfarçado que nunca deixa ninguém estar mesmo à vontade. É a avó a referir- se ao pretinho, ou a pessoa de cor com alcunha assumida, ou qualquer outra característica que inconscientemente usamos para diferenciarmos alguém em vez de distinguir. Existem atos que em sociedade não tentamos corrigir ou melhorar

É certo observam-se diferenças geracionais e que é importante respeitar quem teve ensinamentos diferentes, mas muitos destes comentários renovam- se do passado. E é um problema que afeta mais a quem não faz parte do que é considerado “normal”, daí o seu desafio. Tal como há coisas que a mim me disseram e não me fizeram alegre, também eu disse e passei uma mensagem errada sobre mim que tomo como lição. Passei por homofóbico por contar uma piada que talvez devesse ter sido feita noutro contexto. Facilmente se pode ser mal-interpretado quando se discutem estes temas, mas acredito que seja ainda mais importante que a discussão de identidade não seja tabu. Infelizmente, só me contaram que era homofóbico alguns dias depois. Fiquei mal visto, e na ignorância. Até discordo do significado dos meus comentários… mas se realmente não quero ser preconceituoso, aprendi que dependo do julgamento dado por aqueles que estão à minha volta.

Em tal cenário, se ninguém me tentar entender ou corrigir, continuarei a ser homofóbico. Até sem saber. Acredito que seja um desafio importante de rever no dia-a-dia.

Durante o Europeu, enquanto assistia a um dos jogos, um fulano comentava constantemente para o ecrã, como que falando para o Fernando Santos. Duvido que o escutaria. Se bem que pessoalmente concordava perfeitamente com essa substituição que se veio a revelar importante, o jogador em questão estava a ser mencionado pela etnia, não pelo nome ou alcunha. Não obtendo resposta ao meu pedido para que deixasse o jogador em paz, ainda assim, não voltou a referir- se ao jogador da mesma maneira. Os seus colegas expressaram satisfação e até algum gozo. Se bem que será melhor conversar sobre o assunto, não deixa de ser sensato deixar algumas pessoas perceberem que podem estar a ser ofensivos. Dificilmente de outra maneira podemos ser mais responsáveis e respeitadores para com o outro e para com todos.

É sobretudo, ter o poder de decidir que podemos melhorar-nos através dos nossos amigos e não que o nosso círculo de amigos nos define. Quer sejam do tipo X ou Y. Prefiro antes este preconceito: todos conseguimos ser melhores.


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