João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Quando a voz começa a dançar

A origem do canto, enquanto interpretação musical usando a voz humana, perde-se na noite dos tempos. Todavia, é quase unânime que a história do canto está intrinsecamente ligada à própria história da música, visto a voz humana ser o principal instrumento: não só pela sua importância, mas enquanto antiquíssima manifestação da aptidão do homem para a arte musical. Desde as sociedades primitivas que a arte do canto se impôs com um poder mítico, quase sobrenatural, como cura para os males do corpo e da alma. A voz humana habituou-se a entoar cânticos de alegria ou de lamento, cânticos religiosos e de trabalho; a contar histórias através de poemas que musicou ou, simplesmente, a entoar sons encantatórios.

Existe uma cantora portuguesa cuja voz invoca toda a imensa história da voz humana, enquanto instrumento musical primordial. Essa cantora chama-se Maria João. Dotada de uma voz elástica que alcança toda uma série de agudos e graves, é senhora de um estilo de jazz instintivo, improvisador, o qual lhe garante um lugar cimeiro entre as cantoras de jazz portuguesas. Fez alguns discos notáveis, acompanhada pelo pianista Mário Laginha, como sejam Cor, de 1998, Lobos, Raposas e Coiotes, do ano seguinte, ou Chorinho Feliz, do ano 2000. Encontrou no seu piano, há muito chegado à maturidade, as texturas ideais para explanar os seus malabarismos vocais.

Não é fácil destacar um disco em particular que resultou desta frutuosa parceria. No entanto, arriscamo-nos a escolher o álbum Danças, de 1994. Nesse disco, Maria João leva ao extremo a arte da variação vocal, tecendo as fantasias mais extraordinárias que a voz humana pode conceber. Cruzando a influência do jazz (principalmente do chamado scat) com a música africana e brasileira, e a música tradicional portuguesa, Danças apresenta uma série de inovações vocais, a tal ponto que o ouvinte é embalado por o seu ritmo contagiante, já sem saber muito bem o que é arte trabalhada, e o que é espontâneo, tal a gama de cambiantes e diferenciações que Maria João põe na voz. E, na maior parte das vezes, nem recorre à palavra, servindo-se de simples onomatopeias, no que aparenta ser um canto rudimentar, quase primitivo… Pura ilusão.

Na realidade, estamos perante uma forma musical superior, só comparável à de outras cantoras que constituem uma referência para Maria João, como sejam Ella Fitzgerald ou Betty Carter. Mas também podemos mencionar os nomes de Laura Newton ou de Meredith Monk, se quisermos aprofundar o universo vertiginoso da improvisação a que Maria João pertence de pleno direito. O universo em que a voz humana renasce como uma força primorosa, onde a voz vai buscar o que há de mais essencial na sua natureza e transfigura em grande arte.

O disco Danças abre com o tema O Vos Omnes, um tema da música tradicional portuguesa, tal como é Senhora Santa Combinha, o que encerra o álbum. Esta última faixa expressa uma religiosidade popular, marcada pela autenticidade, na singeleza de um canto tão natural quanto sincero. Coisas da Terra e Várias Danças, as faixas do disco que se sucedem, elevam a voz de Maria João ao píncaro da arte de improvisação (designadamente na parte final de Várias Danças). Uma palavra também para o piano de Mário Laginha que, nessas faixas, atinge um grau de virtuosismo admirável.

O quarto tema é um original do brasileiro Adoniran Barbosa, e representa assim uma brilhante incursão no domínio da música brasileira. A quinta faixa é outro original de Mário Laginha, tal como a sétima, intitulada O Coro das Meninas. O sexto tema tem formato de canção e chama-se No Dia em que as Flores Comeram os Pássaros: é quase um murmúrio, muito suave, muito doce, num mundo vocal que às vezes toca um tom agreste; os seus autores são José Peixoto e Hipólito Clemente.

Danças constitui, portanto, um disco a recordar ou a descobrir. Um álbum que resulta da colaboração entre um pianista extraordinário e uma voz feminina ímpar na música portuguesa.

 


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