José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (228)

A propósito dos trajos estremenhos e da forma de os usar

Ucrânia

 

(Ao heróico presidente Zelensky)

 

Na outra estrema da Europa,

onde a liberdade

faz fronteira com a tirania,

dobram os sinos

pelo direito dos povos

serem senhores dos seus destinos.

 

Lá, na estrema do sonho

dos homens livres

em pátrias livres,

é outra vez o espectro da guerra,

monstro medonho

que mata a esperança

dos claros dias

de um mundo novo

liberto de tiranias.

....

 

As recolhas etnográficas não são tarefa fácil, e cada vez mais difíceis senão já impossíveis de levar avante. Exigem muito trabalho, muita atenção e, sobretudo, a humildade de reconhecer e de emendar os erros cometidos.

Pela minha parte dou a mão à palmatória, pelo menos em dois aspectos, um respeitante às chitas de Alcobaça. Como se sabe a chita é um tecido de algodão, que se fabricou em Alcobaça não para saias ou blusas mas apenas para cobertas (de camas, de baús, etc.). O tecido para saias era fabricado nas províncias do norte e com grande frequência importado de Inglaterra. Este de inferior qualidade ao que era feito em Portugal.

Como surgiu o engano? Da informação que nos davam na altura da compra dos trajos: “esta saia é de chita de Alcobaça”. Mas não era.

Outra informação errada tem a ver com os lenços tabaqueiros, afinal de raro uso pelos nossos camponeses. Frequentemente o assoar era função dos dedos despidos de qualquer trapo.

Sobre estes e outros aspectos etnográficos respeitantes à Alta Estremadura é de consulta obrigatória o livro do Dr. Adélio Amaro, publicado em 2019, “ETNOGRAFIA – Alta Estremadura 1”, em que recolhe criteriosamente as informações, de autores de nomeada, do século XIX e princípios do século XX. Aliás, a partir dos anos 20 do século XX, tudo o que é distintivo do Povo, começa a diluir-se na invasão dos usos e costumes estrangeiros.

Mas há uma fonte que é preciosa e que não pode mentir: a fotografia. Creio que as primeiras fotografias tiradas na Batalha datarão dos finais dos anos 50 do século XIX. Evidentemente que essas retratam apenas o Mosteiro, mas poucos anos depois já os fotógrafos reproduzem, em preciosas e elucidativas imagens, aspectos diversos do povo da paróquia da Batalha e de paróquias vizinhas, em actos religiosos, de que são de destacar as procissões, os arraiais, os mercados, as feiras, a saída da igreja do Mosteiro depois das missas, etc., etc..

Outras fotografias, extremamente elucidativas, pertenciam à família batalhense, família que recordo com consideração e estima, Mendes Costa. Três tiradas na vila por altura da Festa da Santíssima Trindade, uma a da procissão do Santíssimo, outra a da procissão das ofertas e a terceira do arraial da praça de Mouzinho de Albuquerque. A 4ª. Fotografia foi tirada no adro de Santo António na Rebolaria, na festa em honra do Santo. Datam as quatro de 1899.

Mas há numerosas, talvez centenas, de fotografias tiradas naquele período que termina, sensivelmente, no terceiro decénio do século XX. Umas que merecem particular referência são as que foram publicadas na revista Brasil-Portugal em 1901, por altura da transladação dos restos mortais do Rei D. Afonso V e da Rainha D. Isabel de Avis, do Rei D. João II e do seu filho, o Príncipe D. Afonso (morto muito jovem numa queda do cavalo que montava). D. Afonso V, a esposa e o neto estiveram, até ao ano referido, em tumba de madeira, na Casa do Capítulo. D. João II, também numa tumba de madeira mas na igreja conventual, na capela da Senhora do Pranto. O corpo deste monarca manteve-se incorrupto pelo menos até às invasões napoleónicas.

Ora os fotógrafos da citada revista não se limitaram a registar as imagens dos actos oficiais, presididos pelo Rei D. Carlos I, mas as do povo que assistia na vila às cerimónias ou que assistiu à passagem do Rei e da Rainha D. Amélia e da respectiva comitiva, entre a estação de caminho de ferro de Leiria e a Batalha. E nestas imagens há informações preciosas sobre a forma de trajar do Povo. Várias já reproduzi no “Jornal da Batalha” e a que publico a ilustrar este apontamento não tenho a certeza se pertencia a esse magnífico conjunto da citada revista. De qualquer forma mostra-nos como o Povo trajava e mostra-nos de forma inequívoca. Vêem-se ainda chapéus de parto, com aba horizontal, e chapéus de aba vertical, ambos nas mulheres, saias de cobrir e outras peças do trajar feminino. Nos homens, os carapuços quase sempre com a borla cindo nas costas; alguns chapéus de aba larga, jalecos e outras peças de vestuário. Algumas crianças na imagem trajam como os adultos.

Suponho que a informação mais fidedigna sobre o trajo característico da nossa província natal, a Estremadura, particularmente da Alta Estremadura, de que Leiria é a capital, podemos encontrá-la nesta fotografias da segunda metade do século XIX e dos primeiros decénios do século XX. Aliás, a partir da 1ª. Guerra Mundial, foram-se perdendo inúmeras distinções das culturas e dos hábitos regionais, hoje só salvaguardados pelos agrupamentos folclóricos. E esta salvaguarda, quando é cuidada e fundamentada, reveste-se de particular importância porque também na forma de trajar se reflecte a alma dum povo.

 

A redução do número das andorinhas

 

De ano para ano é cada vez menor o número das andorinhas que nidificam na nossa região. E é extremamente apreensivo que o noto.

As andorinhas são essenciais como defensoras da saúde humana. Caçam inúmeros insectos que nos são prejudiciais. Destruir os seus ninhos é, podemos considerá-lo assim, um acto criminoso.

Temos de mudar radicalmente este nosso procedimento. A defesa da Natureza é a nossa própria defesa, uma forma de garantir não só o nosso bem-estar com o das futuras gerações.


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