Francisco André Santos

Diacrónicas

Privar ao luxo

Ao longo dos três anos que empenhei o meu verão a ganhar libras britânicas numa escola de verão da língua inglesa, a minha apreciação da ilha, além de correlacionada com o valor da moeda em queda, desenvolveu-se com o detalhar do sotaque de cada um dos meus colegas em relação à sua classe social. Tal como a rainha nasceu para ser rainha, o Francisco nasceu para ser melhor entendido pelos outros europeus continentais, e o Matt para ir a despedidas de solteiro no estrangeiro.

Por certo que “o pequeno-almoço inglês” já não é novidade, mas perante a falta de doce, fica a promessa de uma gemada para uma colega. Nessa semana, sou confrontado com um paradoxo pelos trabalhadores da cantina: “nós não usamos ovos. São outros produtos”. Espero que esses produtos sejam tão regulados como todas aquelas portas anti-incêndio ou a constituição Britânica, tendo esperança que também o bacon seja hiper-regulado e que “trazer o bacon para casa” se aplique de maneira igual ao consumidor e ao gerente de algum dos múltiplos oligopólios de bacon e da industria agroalimentar do país.

Estando o pequeno-almoço inglês definido - ovos mexidos… sem ovos - percebo que o prato cheio é feito à custa dos olhos e da barriga do consumidor. Na capital de Orwell, são muitas as vezes que encontramos roupa mais barata que comida. Mas os números estão certos: o Reino Unido vive cada vez mais num regime insustentável. O mesmo se passa com a nossa acomodação dos “beefs” no nosso furado e perfurado Algarve.

Esse luxo de massas é um paradoxo nacional: é o nosso turismo insustentável, mas com praias secretas; é o vinho que não tem escala para exportação, mas que completa o almoço, e é a subserviência das latas de sardinha a caminho da Web Summit, num mundo que fala inglês, mas que já não é Anglo-Saxónico. É que existe uma linha que separa o sustentável do insustentável entre o novo, o velho e o antigo.

O país resiste numa ruralidade antiga, mas mais moderna que o “AirBnB”, ainda que completa com aquele fogo de artificio que teima em ser necessário. Mas grande parte do país não vive de serviços. Vive noutros luxos incomparáveis àquele javali selvagem que comi no interior da Grécia: “não tem impostos Merkel”. Também essa linha separa o luxo local do luxo biológico. Traduzindo as etiquetas, as laranjas do meu Avô são mais sustentáveis do que as laranjas que vêm de Espanha, tanto pelo custo acrescido do transporte como pelos fertilizantes utilizados. Já as laranjas biológicas são um luxo que não assiste à partilha da fruta do Sr. Guilhermino - Quando se sabe partilhar com respeito, encontramos a abundância. O luxo local aparece quando reconhecemos a riqueza da mula da cooperativa e da Maria Albertina - é cá da terra e tem puro encanto.

O ocidente vai ter que aprender a “decrescer” para encontrar esse equilíbrio antes que a modernidade nos “apanhe”. Para nossa sorte, o país está além do centralismo Alfacinha, onde se esquece a sua verdura, além daquele ignóbil pedantismo de saber onde fica Leiria pela placa da autoestrada. No final do dia, pagam mais pelo café na “Pastelaria Portuguesa”, pelas “sardines” desses santos da casa, e pelas tais laranjas, esquecendo-se das batatas que têm na cave vieram da gentileza dos primos que pensavam serem tios-avós.

A nossa modernidade está refém do velho. Do compadrio das elites e das estatísticas, da complacência com o capital estrangeiro, assegurando tudo para Inglês e Chinês ver. O antigo está à espera do novo. Não são as Startup privadas da velhinha Web Summit. São as comunidades em rede, essas sim, com vista para outras regiões e capitais europeias que se mantêm atuais. O agente até pode ser da polícia, mas a minha gente é que é um luxo.


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