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A primeira derrota de Putin

O mais notável no discurso de Putin, no Dia da Vitória, foi o que ele não disse. Não declarou mobilização geral para a guerra contra a Ucrânia. Não declarou vitória numa guerra que deveria ter terminado há mais de dois meses. Não fez nenhuma ameaça sobre o arsenal nuclear da Rússia, algo que era insistentemente repetido. Mencionou os nazis, mas não a "desnazificação", um dos objetivos declarados para a guerra. Nem fez um apelo geral à união em torno da bandeira, para envolver a população russa para o grande sacrifício na guerra ou por causa dela.

Para os atentos à presidência de Putin, o discurso de 9 de maio seria o mais importante dos seus 22 anos como líder da Rússia, o Dia da Vitória - um feriado sagrado para milhões de russos e no momento em que Putin estava no centro das atenções globais - seria o local e oportunidade mais que prováveis.

Como em todos os discursos do Dia da Vitória, Putin homenageou os milhões de cidadãos soviéticos que morreram lutando contra a Alemanha nazi e, como nalguns outros, aproveitou o momento para atacar os Estados Unidos.

Com o Kremlin a travar a maior guerra terrestre na Europa, desde a II Guerra Mundial, imaginavam-se sinais sobre como Putin enquadraria a guerra na Ucrânia que, à data, não estava nada bem, e que, até agora, pouco ou nada melhorou! No final, o discurso de 12 minutos, quando poderia puxar a si um discurso de horas, ofereceu pouca ou nenhuma clareza, nem mudança de política transformadora, na maior crise interna, a nível económico, e externa, da própria liderança de Putin.

A pompa anual do desfile incluiu a aparição habitual de centenas de militares marchando diante das paredes orientais do Kremlin, junto com o ruído de veículos blindados e mísseis balísticos intercontinentais.

Excecionalmente, não houve o aguardado "desfile aéreo" de bombardeiros, helicópteros e caças em formação “Z”, o destaque do evento, tendo o cancelamento sido anunciado pelo porta-voz do Kremlin, poucos minutos antes do início das cerimónias, com a desculpa do clima… isto num dia esplêndido e de sol radiante.

O discurso de Putin continha elementos importantes da mitificação da II Guerra Mundial, cuja memória foi esticada - ou distorcida: "o culto da Vitória", um culto à guerra, que não tem nada a ver com a história real da II Guerra Mundial mas, sim, um culto ao novo totalitarismo russo, cuja ideologia é muito simples e sobejamente conhecida.

Cerca de 27 milhões de cidadãos soviéticos morreram nos quatro anos de luta contra a Alemanha nazi, uma perda que foi marcada por gerações, desde então. Putin prestou homenagem a essa perda mas, em contraste, o alcance das perdas da Rússia na guerra da Ucrânia foi ocultado do seu povo. 27 de março foi a última vez que o Ministério da Defesa divulgou um número oficial de mortos, e essa contagem - 1.351 - é apenas uma fração do que as autoridades ucranianas e ocidentais dizem ser o número real, já estimado em mais de 15.000.

O alto número de mortos entre as tropas russas, bem como as altas taxas de perda de equipamentos, é um grande impedimento para qualquer reivindicação de uma vitória decisiva – um problema fundamental que provavelmente só pode ser resolvido com mais tropas. Isso significa convocar reservistas ou enviar recrutas relativamente jovens e inexperientes para a luta ou, mais extremo, anunciar uma mobilização geral e em massa, da sociedade.

Mas não aconteceu, possivelmente porque envolveria a declaração de guerra, algo a que o Kremlin se recusou a chamar de invasão, descrevendo-a com o termo eufemístico de "operação militar especial".

Além de salientar o heroísmo soviético e as perdas de 77 anos atrás, Putin brandiu outros tropos recorrentes: atacou o ocidente, a OTAN e, em particular, os Estados Unidos e, assim como as forças soviéticas ajudaram a derrotar o nazismo na Europa, afirmou que as forças russas foram forçadas a agir contra a Ucrânia, numa "rejeição preventiva à agressão" de neonazis apoiados pelo ocidente

Todos sabemos que as tentativas de Putin de justificar a invasão como um ataque preventivo são totalmente infundadas, pois nem a Ucrânia nem a OTAN planeavam atacar a Rússia.

Assim, uma declaração de guerra ou uma mobilização por parte de Putin no seu discurso, seria uma espécie de admissão de derrota.

Mas, talvez a omissão mais reveladora, é que Vladimir Putin também não declarou a vitória, e sabe-se lá se alguma vez a virá a declarar.


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