Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do Passado

Prelúdio das Almas Gémeas

 

- Em que pensas, Francisco?

- Em como é diferente o amor em Portugal…

- Pára de citar o Júlio Dantas.

- Preferes o Almada Negreiros?

- Prefiro quem mais me ama.

Eram assim as conversas com a ninfa que amava eternamente, naqueles primeiros dias primaveris, quando me despontou a paixão ardente e os sorrisos infantis. Ela olhava-me curiosa e eu ficava espantado com o tanto que tínhamos em comum. De todos os que a rodeavam, eu era apenas um, mas, por alguma sorte que me escapa, foi a mim que estendeu a capa. Dançávamos nas páginas dos livros e nos bares e cafés de Lisboa. A minha alegria deu-me passos de adamastor, num desejo infinito de amor. Sentia a sombra e eco de Pedro e Inês, nessa fonte interminável de lágrimas e risos joviais. A tragédia espreita sempre por trás do ombro da glória, mesmo que não a vejamos.

Mostrou-me os segredos que escondia entre linhas e rabiscos, dizia já ter conhecido outros franciscos, como o famoso Rodrigues Lobo. O nosso namoro era intemporal, vivera eras romanescas e revoluções tenebrosas. Foi cantado aos sete ventos pelas trovas e cantigas medievais, declamado por D. Dinis e pelo seu filho D. Pedro Afonso. Há quem diga que Bocage falou de nós nos salões nobres e reais, mas não sei se sou digno de tamanhos arraiais.

Tentámos ser sempre sinceros um com o outro, dizendo baixinho os nossos sonhos e epopeias, ela desabafava épicos e eu elegias. De vez em quando íamos aos fados. Oh! Como ela delirava com um bom verso triste e cantado com sentimento. Nesses momentos confesso que tinha ciúmes. Os estudantes de Coimbra traziam um grão na asa e olhavam para ela de soslaio, os alunos da Letras lisboetas estendiam-lhe a mão para dançarem a valsa.

Viajámos muito durante esse tempo sem horas, passeamos pelos vastos jardins de Aranjuez, onde tu ainda te demoras e te espero ver mais uma vez. Fomos visitar um amigo teu que tocava alaúde por essas ruas de Sevilha. Lembro-me de Florença e Veneza e das noites literárias nos pubs de Dublin. Tudo contigo eram deslumbres e encantos. Mas houve um dia em que compreendi que não já eras só minha, nesse momento perdeste a aura de rainha. Fui à tua procura, mas já não te vi. Entretanto, correram boatos de que foste vista de roda de um escritor mais jovem e ingénuo, que pensava conquistar o mundo.

A inspiração voou nessa noite e perdi os sentidos. Depois disso ainda a encontrei uma derradeira vez, no Jardim Maria Luísa, em Sevilha, onde já tínhamos sido felizes. Só quando nos despedimos é que me lembrei de finalmente lhe perguntar o nome.

- Como te chamas, mulher dos meus sonhos?

- Sou a Poesia – olhou fixamente para mim – Ainda acreditas no romantismo?

- Sempre!

- Nunca mudas.


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