Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do Passado

Pompeux: o novo restaurante da Baixa Lisboeta

“Sob a tipicidade da calçada portuguesa, nas ruas bem movimentadas da capital, ergue-se agora um novo espaço eclético e repleto de excentricidade. A Baixa contempla a abertura de portas do magnifico restaurante Pompeux, criado pelo garboso e simpático proprietário José Manuel Pompeu, que viveu na cidade de Nice por duas longas semanas e aí pôde testemunhar e aprender a excelência da cozinha do sul de França. O nome deste templo gastronómico resulta de um engenhoso trocadilho com o apelido do empresário, para demonstrar o grau de perfeição e de preços que aqui se praticam.

As várias salas que compõem o Pompeux demonstram uma opulência e exuberância nunca antes vista. O chão de mármore de Ferrara realça o brilho dos lustres de vidro colorido de Murano. As cadeiras de madeira de mogno, estofadas com padrões florais convidam-nos a sentar confortavelmente e sem cortesias. As paredes forradas a tecido de damasco carmim ostentam quadros representado paisagens etéreas de praias da costa francesa, lembrando momentos memoráveis que nunca experienciámos.

O gastro bar é a joia da coroa deste estabelecimento, digno de ser referenciado no Guia Michelin, que deve atribuir uma estrela brevemente ao restaurante Pompeux. A seleção de vinhos é outra das poéticas exaltações deste espaço, onde encontramos marcas conhecidas do publico português e rótulos de néctares franceses e italianos, numa clara veneração pelos palatos mais subtis e exigentes. A cozinha de fusão confere ao menu um gosto refinado e triunfante, numa conversa entre a gastronomia francesa e mediterrânica, sem nunca esquecer a influencia bem portuguesa, com pratos como o glamoroso bacalhau com coentros da India, açafrão e cogumelos bravos, regado com azeite de trufa preta, que custa a modica quantia de 38€. O cozinheiro francês, que confeciona estas iguarias, afirma estar mais do que satisfeito e adora viver em Portugal…”

- Está escolhido o lugar para reunirmos – disse uma sombra sentada num canapé, pousando o jornal ao seu lado. – Irei enviar uma carta a todos os seus inimigos e finalmente se fará justiça.

Passada uma semana, pelas 13h00, Jerome K. Jerome entrou no exclusivo restaurante Pompeux.

- Boa tarde, Senhor – cumprimentava o chefe de sala. – Deixe-me servir este vermute e um amuse-bouche, pão de sementes recheado com salmão fumado, pescado na costa canadiana pelos pescadores mais experientes, acompanhado de queijo de cabra montesa, beringela caramelizada e uma azeitona dos Alpes.

- Hum… Eu marquei mesa em nome de Jerome…

- Com toda a certeza, a mesa de Vossa Excelência fica na exuberante Sala Ganimard, junto à janela, com uma vista privilegiada sobre a loja de conservas mais típica de Lisboa.

O chefe de sala encaminhou este nosso conhecido para o seu lugar, onde já o esperava um sujeito.

- Então o senhor é que é o famoso Sir William H. Stuart, não é verdade?

- Sim! – afirmava o nobre inglês. – Suponho que é o conhecido escritor Jerome K. Jerome.

- É verdade! Gosta de algum livro meu?

- A obra “Três Homens num Barco”, porque adoro a forma como descreve o seu amigo Montmorency.

- Escolheu um clichê.

Entretanto entra esbaforido o último elemento desta reunião.

- Homem, largue-me! Eu não estou interessado nas suas vitualhas.

- Sente-se, Nicholas Craven, estávamos à sua espera – convidou Jerome, puxando a cadeira restante.

- Mas, trouxe um Jack Russel Terrier para este encontro?

- Caro Sr. Craven, eu não sou um cão, sou o Sir William H. Stuart – respondia enraivecido.

- Claro que é, queira desculpar Vossa Senhoria – disse Nicholas, enquanto dava uma festa na cabeça do espécime canino.

- Já escolheram o vinho, caros senhores? Sugerimos a colheita de 1972, principalmente a casta Syrah. O Morgado de Sandim seria uma excelente escolha para acompanhar o nosso carpaccio de vitela, cozinhado ao vapor, acompanhado por lascas de romã, perfumado pelo aroma da framboesa silvestre da Bretanha, com uma pitada de vinagre balsâmico e… - perguntou o empregado.

- Pode ser, mas despache-se que não temos tempo a perder – disse Craven.

- Caros amigos, convidei-vos para nos vingarmos desse cronista usurpador dos direitos de autor, que dá pelo nome de Francisco. Sei que já vos causou tamanhos desagrados – anunciou Jerome.

- Estou disposto a tudo para pôr fim à sua crónica mensal, já estou cansado do meu nome ser arrastado pela lama – concordou Nicholas.

- Apoiado! Esse malsim já me fez perder vezes a mais o rasto do Javali de Erimanto – constatou Sir William.

- Antes que digam que se sentem sozinhos, trago-vos um prato de camarões tigre, marinados em vinho branco do Veneto, com uma profusão de especiarias. Parecendo que não, o marisco faz muita companhia – chegou o empregado que pousava uma travessa com o dito marisco.

Foram tentando combinar o seu plano diabólico, apesar das interrupções exasperantes dos empregados deste renomado restaurante. A conta final chegou e só sabemos que o Pompeux passou a ter três novos funcionários, apesar do ladrar que se faz sentir na cozinha de vez em quando.

 

 

 


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