Joana Magalhães

Pestanas que Falam

“Podemos falar depois das 18 horas”

“Olhe, neste momento não posso porque estou a trabalhar, mas podemos falar depois das 18 horas” - é uma frase que nós, jornalistas, ouvimos muito. “Durante a semana não posso porque estou a trabalhar e tenho de ir buscar os filhos, mas podemos combinar para o fim-de-semana”, é outra. E nós esperamos pela hora de saída do trabalho, ligamos num instante ao fim-de-semana.

“Envie um e-mail que eu depois vejo isso”, também é uma resposta comum para uma caixa de entrada que poucas vezes recebe de volta o prometido. Ou recebe, mas fora do tempo. Ligar outra vez, insistir para ver o e-mail, para responder a tempo, é rotina diária. Lá pelo meio ouve-se um “eu respondo, mas veja lá o que escreve que da última vez colocaram coisas que eu não disse”.

Parece lengalenga gravada que se repete no leitor. Mas o jornalista solta um sorriso, responde com simpatia, porque é preciso e porque tem de ser. E no final, por vezes, consegue o trabalho que ambicionava e enche-se de realização.

E o momento em que se enche de realização faz o leitor formatar-se e apagar as gravações do costume. É o momento que vale a pena, que comprova a “doença do jornalismo”.

E o jornalista também é isto: paciente, tolerante e relações públicas. Mas no momento da notícia conseguida, do peito cheio, é-se o verdadeiro jornalista. Está-se a acabar o ano e 2020 começa como este terminou, de olhos abertos, mãos nas teclas e telemóvel no ouvido. E ainda bem.


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