Francisco André Santos

Diacrónicas

Piratas da academia

“Sobre os ombros de gigantes”, é esta a frase que o Google Scholar, a solução de pesquisa para artigos académicos, apresenta na sua página inicial. Trata-se de uma referência à construção de conhecimento, universalista e acessível a todos, desenvolvido continuamente, que deixou de ser escrita em latim.

No meu primeiro ano de faculdade, descobri uma forma alternativa de estudar: além das legalmente dúbiosas cópias que encontrávamos na reprografia, era nascente no YouTube todo um repositório de conhecimento em vídeo que mesclava positivas pela mutabilidade do conhecimento com as negativas, pela rigidez imutabilidade do professor e da sua aula. Por mais que os meus colegas estranhassem esta meu método, igualmente estranhavam os correspondentes resultados, que nos diferenciam por décimas nalguma base de dados.

No 2º ano de faculdade, além da coleção de livros do meu padrinho de faculdade, começamos a colecionar na ´”nuvem” pastas partilhadas com artigos, livros, trabalhos de grupo e apontamentos, denotando a raridade dos documentos criados pelos colegas mais competitivos. Finalmente, com a nova exigência de escrever ensaios acadêmicos, a frustração de ter que pagar 30 euros por um artigo, na esperança de se adicionar uma boa referência perde para um grupo de Facebook com milhares de pessoas disponíveis para partilhar uma cópia do mesmo artigo, aparentemente gratuito. Daí aparece um link no grupo para um website chamado ´”Sci-Hub”, portal com o slogan “removendo barreiras no caminho da ciência”.

Defensor de acesso livre, o material científico e académico, Aaron Swartz tinha 26 anos quando se suicidou. No documentário “O Menino da Internet”, além dos seus contributos para o desenvolvimento de fóruns online e a sua representação legal, de como fez uso do acesso pago pela sua universidade para descarregar todo este conhecimento para um disco externo. Sem nunca ter disponibilizado este acesso, perante um processo judicial, Aaron comete o suicídio, prevenido precedentes legais para casos semelhantes na justiça Americana.

Do outro lado do mundo por volta da mesma data, uma cientista Cazaque, Alexandra Elbakyan cria o referido Sci-Hub. Sobre o contributo de credenciais de acesso aos referidos artigos, Alexandra desenvolve um portal que disponibiliza um repositório para a eficiente partilha desses mesmos artigos, como eu e os meus colegas começámos a fazer.

Além desta barreira da academia, um dos projetos para o qual tenho andado a contribuir chama-se Fractal Flows, uma plataforma que procura fomentar o debate académico de maneira a encontrar consenso científico, além dos imutáveis artigos de debate, mais comuns nas ciências sociais . A este projeto, juntam se outros 11 que cooperam e contribuem, e desta forma coordenam o ecossistema de ciência aberta, de maneira a quebrar estas mesmas barreiras. Trata-se de um esforço conjunto que permita transformar e elevar a ciência para benefício comum, honrando e continuando os esforços de Swartz.

Ontem, voltei a partilhar o acesso do Sci-Hub. Desta, com um colega do restaurante onde trabalho. Tem alguma ironia um lavador de pratos a partilhar acesso a artigos científicos com um colega da cozinha, mas também enceta um novo paradigma, talvez pirata, capaz de nivelar o acesso à educação. Os repositórios pagos pela sua universidade não incluem o que procurava e por isso, com alguma urgência requisitou o website. Para os mais críticos, relato o comentário de uma ex-colega investigadora depois de lhe referir o website: “consegues encontrar o meu livro? Os filhos da mãe não se dignaram a enviar uma cópia”. Foi com muito gosto que “roubei” o seu livro

Paga por dinheiros públicos, década sobre década, o contributo de académicos, cientistas e visionários permite-nos ver mais longe, agora com novas formas de contribuir e cooperar pela ciência.


NESTA SECÇÃO

O mistério de John Constable

A claridade rareava pelas ruas enegrecidas de Londres, suplicando crimes e vultos malsins, a...

Uma nova equipa minhocas encontra-se a trabalhar na horta

Estamos a ter um inicio de janeiro bastante frio, no meu quintal tenho de resguardar as plan...

Votos de felicidade para o ano de 2020

O nosso povo costuma dizer que “tristezas não pagam dívidas” e no início de um novo ano e a ...