Núcleo de Combatentes da Batalha

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Perceção e probabilidade do risco

Portugal, pelo “Global Peace Index” 2017, é o 3º país mais seguro do mundo. É um excelente registo, tendo em conta que são considerados todos os tipos de segurança, desde a militar, passando pelas forças da ordem e segurança privada e terminando na segurança e higiene no trabalho, ou seja, a segurança de pessoas e bens, na sua generalidade.

Pode assim constatar-se que, por sermos um país seguro, os portugueses têm uma ideia de risco totalmente diferente de outros europeus, que mudou certamente após os ataques terroristas. Esta percentagem não é superior porque a perceção de risco não corresponde à real probabilidade de o mesmo acontecer.

A hipótese de um avião cair é de um em 11 milhões, mas, no entanto, a perceção é inversa. A um português é tão improvável sair-lhe o Euromilhões como ter um acidente aéreo, com a ressalva de a queda ou acidente não significar a perda da vida, ou que ele teria de estar a viajar sozinho no avião.

Para se ter uma ideia mais fiel destas probabilidades em particular, viajam por ano, em média, 2,84 biliões de passageiros em aviões comerciais, tendo havido 560 mortes em acidentes aéreos em 2015, das quais 374 foram devidas a atos premeditados.

A perceção pessoal é então baseada na publicidade e nos títulos noticiosos acerca dos responsáveis terroristas e ataques por eles efetuados por esse mundo fora, enquanto que a realidade é bem diferente. Assim, as probabilidades de se morrer num destes ataques a bordo de um avião é de 1 em 25 milhões e a média global de se morrer em qualquer tipo de ato terrorista em todo o mundo é de 1 em 9,3 milhões, novamente um número muito chegado ao da população nacional, o que reitera a hipótese de ser tão provável sair o Euro milhões a um Português como perecer num ataque terrorista.

Para compreendermos a perceção de risco é imprescindível perceber o que é o risco que, por noção, é a “probabilidade de ocorrência de um acidente ou evento adverso, relacionado com a intensidade dos danos ou perdas resultantes dos mesmos”, ou seja, é a eventualidade de acontecer algo, seja de bom ou de mau.

Todo o ser humano, após o estímulo para o risco, por exemplo, uma notícia, elabora a sua própria perceção, consoante o grau de capacidade que tem para lidar com aquela situação em particular. A perceção desse mesmo risco será sempre inversamente proporcional à sensação de impotência, para resolver ou minimizar o impacto do possível acontecimento. Deve-se enfatizar que os fatores sociais, culturais e políticos também têm uma influência considerável na aceitação do risco, tal como na ameaça de o enfrentar. Portanto, uma especial atenção a esses fatores deveria fazer parte de uma estratégia de informação generalizada, mesmo que apenas através de pequenos spots institucionais em horário nobre, de modo a desinquietar a população, identificando, alertando e explicando quais as influências sociais a que estamos sujeitos e que nos levam a conjeturar erradamente formas de comportamento para determinado risco e assim criar formas incorretas de reforço!

As pessoas devem estar cientes dos sinais de risco reais, para desfrutarem dos prazeres da vida, sem pensarem que algo pode acontecer a qualquer momento. Poder, pode. Mas se imaginarmos que existem milhões de maneiras de podermos correr riscos, desde o simples engasgar com um copo de água, então vivamos conscientes das infinitesimais probabilidades e informados das reais perceções, para podermos desfrutar de todas as coisas boas da vida, que são muito mais prováveis de nos acontecer.


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