Os vivos e os mortos

A “evolução” da sociedade remete cada vez mais o Ser Humano para segundo plano. As necessidades, como outrora Maslow constituiu na sua pirâmide, deixaram de fazer sentido. Hoje, ao chegar-se à estação de comboios de Santa Apolónia, em Lisboa, deparamo-nos com Wi-Fi gratuito, mas, para satisfazer uma necessidade primária, nomeadamente a utilização dos sanitários públicos, é necessário desembolsar a quantia de 0,50 euros para passar as portas automáticas de acesso, e realizar o tão apetecido alívio.

Parece algo que só acontece naquele país onde atirar uma beata para o chão implica uma coima de 500 euros, mas em que o ordenado mínimo ronda os 600, e coima essa superior ao valor de infrações graves e muito graves, cometidas ao volante de um automóvel, do qual pode resultar a perda de vidas. Ou no país onde as autoridades são presas por cumprirem o seu dever e ainda se veem obrigadas a indemnizar os criminosos. A pirâmide inverteu-se e os valores sociais também. A época em que se vive desvaloriza cada vez mais a vida humana.

Legisla-se em favor de grupos minoritários, esquecendo o normal Ser Humano. Quase que, para se ter direitos, hoje em dia, o melhor será ingressar numa qualquer minoria, pois esses são relembrados a cada minuto que passa e todas as suas reivindicações satisfeitas, sejam elas quais forem. A lei, para ser justa, terá de ser pensada igual para todos; os direitos terão de existir pela qualidade de se ser humano e não por pertença ao que quer que seja; ser compensatória para quem cumpre as regras da sociedade e não o oposto.

Enquanto se criam condições nas prisões com quartos de casal para visitas íntimas de três horas, os idosos são esquecidos em lares degradados, muito piores que prisões de terceiro mundo, e ao passo que, numa visita hospitalar, para se estar com os entes queridos e necessitados de afeto, demora muito menos tempo que uma visita prisional.

Quando pormenorizamos e priorizamos grupos sociais, em vez de igualizar a sociedade como um todo, passamos a ter cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. Simplesmente, não teria de ser necessário, por exemplo, relembrar a quem envia homens e mulheres para a guerra que, à posteriori, lhes terá de garantir o apoio necessário aos traumas físicos e psicológicos que tal acarreta para toda a vida. Deveria ser uma causa com consequência automática, mas manter essa realidade viva não é politicamente compensador; convém esquecer. Vai-se camuflando e aprovando com novo nome o que já existe só para tapar o sol com a peneira.

Tudo o que outrora já foi falso agora é verdade, e tudo o que já foi imoral é agora moral. Em apenas quatro gerações assistimos à reengenharia do comportamento humano e valores, para promover tudo o que é desviante e pervertido. O que está simplesmente a acontecer, qual dividir para reinar, é um novo fenómeno sociológico - a manipulação dos seres humanos para entrarem no seu estado mais fraco. Essa elaboração impede a formação da família e facilita o seu controlo. Quando os seres humanos são movidos por sentimentos transitórios de luxúria e gula, em vez de rituais tradicionais e moderados, acabam por se tornar escravos dos seus desejos e das necessidades atuais que lhes são impostas.

A inversão da pirâmide e, subsequentemente, da sociedade pode ser facilmente vista em nosso redor.

Defendem-se direitos dos animais na Assembleia da República, há manifestações frente às praças de touros, mas ninguém se junta em demonstrações de apoio aos profissionais de saúde para denunciar as condições de internamento hospitalar dos pares humanos. Compra-se tecnologia, mas nega-se caridade. Passeiam-se os cães aos fins-de-semana mas os pais e avós ficam encerrados nos lares. Ruma-se aos cemitérios mas não se visitam os familiares vivos.

Há que mudar de paradigma: pensemos 364 dias em cuidar dos vivos e um a homenagear os fiéis defuntos, e não o contrário, por dar menos trabalho.

Repensemos bem alto a sociedade, e não tenhamos medo de afirmar quais os nossos ideais, pois quem cala consente.

 


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