José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (185)

Os instrumentos musicais do pórtico do Mosteiro (II)

Aliás, serão dois assuntos a que vou referir-me na secção deste mês. O primeiro ainda relacionado com os instrumentos musicais do pórtico principal do Mosteiro, tentando enriquecer com novas informações o que disse no mês passado, e o segundo voltando a uma velha questão: a da pedra de armas do Infante D. Henrique esculpida na lateral do seu túmulo.

Na segunda arquivolta do pórtico, a contar de dentro, recordo, estão esculpidos doze instrumentos, que chamarei medievais, mas dado que três se repetem, o saltério uma vez, o órgão portativo duas vezes e a viola de arco (violino ou rabeca) uma vez, reduz-se a oito os instrumentos figurados. E porquê oito, havendo espaço para muitos mais? Possivelmente por serem os instrumentos, pensar-se-á, mais vulgares naquele princípio do século XV, mas eu creio que para se representar ali a Corte Celestial teriam de ser escolhidos os que se utilizavam noutra Corte, uma corte terreal mas a que, segundo o que se pensaria na época, mais se aproximava da Corte Divina. Serão pois, julgo, essencialmente instrumentos de salão, não obstante alguns, como seria inevitável, terem passado para o domínio popular.

Na minha constante inquirição das coisas do Mosteiro tenho tido, além da compreensão e do apoio do director Dr. Joaquim Pereira Ruivo, espírito de extraordinária elevação, a colaboração do Luís Matias Ceiça, invulgar sensibilidade, um guardião moderno dos tesouros do monumento. Ora foi ele que me chamou a atenção para uma singular (e não serão todas singulares?) gárgula da ordem debaixo das gárgulas, na parede norte das Capelas Imperfeitas, curiosa figura de mulher, de boca escancarada como quem canta e tangendo um estranho instrumento de cordas em que a vulgar boca do tampo é substituída por pequenos buracos redondos. O cravelhal é de tal maneira inclinado que forma um ângulo recto com o braço do instrumento. Aparenta seis cordas, e tem algumas semelhanças com a mandola do pórtico, como terá também semelhanças com a viola de cocho, das regiões pantaneiras do Brasil, de que aqui falei no número de Agosto, vindo a propósito lembrar que a vinda à Batalha, anos atrás, do etnomusicólogo brasileiro professor Abel Santos se ficou a dever à recomendação do maior etnomusicólogo português da actualidade, Dr. José Alberto Sardinha, autor duma vasta e completíssima obra, de que sobressai, com especial interesse para nós, batalhenses e estremenhos, o notável livro “Tradições Musicais da Estremadura”, com preâmbulo do saudoso compositor Fernando Lopes-Graça. Esta volumosa edição contém além de notabilíssimos estudos do Dr. Alberto Sardinha, as partituras da sua recolha, uma resenha dos seus informadores ilustrada com as respectivas fotografias e três discos compactos.

Para além dos doze anjos músicos do pórtico conventual, há no Mosteiro pelo menos mais três figuras tangendo instrumentos da época: um anjo com mandola, no transepto, outro anjo também tangendo mandola no canto noroeste do Claustro Real, junto ao refeitório conventual (hoje Museu da Liga dos Combatentes) e à passagem para o Claustro de D. Afonso V, e agora a gárgula música, cuja imagem, obtida pelo Luís Ceiça, se reproduz neste apontamento.

Logo que possível, desde que consiga obter mais informações, voltarei a este cativante assunto das figuras, angelicais todas menos uma, que tangem instrumentos musicais medievais.

Há bastantes anos, fiz algumas considerações sobre a heráldica inscrita nos túmulos da Capela do Fundador, chamando a atenção para o que parecia, e parece, estar errado nalguns deles. Não sendo eu heraldista, pedia então e continuo a pedir, a intervenção dos heraldistas para se apurar a verdade, e no caso de os haver para se emendarem os erros.

Como distintivo da sua posição na Corte, os filhos segundos dos reis, os denominados infantes, ostentavam na sua perda de armas o lambel ou banco de pinchar, sendo esta a designação mais antiga, uma barra estreita a encimar o escudo com, normalmente, três pendentes onde se desenhavam os sinais que os diferenciavam. Eis alguns exemplos: O Infante D. Pedro tinha como diferença dois arminhos, o Infante D. Henrique três flores de Lis e o Infante D. João um pequeno entalhe.

Ora, no lambel do Infante D. Henrique em vez dessas três flores de lis está o entalhe, diferença do seu irmão D. João.

O túmulo do Infante D. Henrique beneficiou em 1929 de restauro, tendo sido então substituído o seu frontal, obra de que foi incumbido Joaquim Jorge Ribeiro, pertencente a uma família de verdadeiros mestres de que era patriarca Pedro Jorge Ribeiro. Diz, a este respeito, o Professor Luís Reis-Santos, na “Iconografia Henriquina”, publicada em 1960, sendo uma das publicações que recordavam o Infante D. Henrique no V centenário da sua morte, que “o frontal que actualmente se vê no túmulo, copiado cerca de 1929, de um anterior, foi meticulosamente esculpido pelo hábil canteiro da Batalha, Joaquim Jorge Ribeiro, que, nos trabalhos executados para o Mosteiro, revelou aptidões excepcionais. O frontal antigo, que os soldados franceses, da invasão napoleónica, arrombaram, está agora no lanço norte do Claustro D. Afonso V”.

Este frontal, em que o escudo do Infante está delido e completamente desfeitos os pendentes e, segundo informação que tenho, já tudo estava assim em 1929, não podia ter servido de modelo, pelo menos nos pormenores, para a sua reconstituição. É curioso referir que se encontra ainda, a par com o do Infante D. João, no claustro referido.

O que poderia ter sucedido? Um restauro como este não podia deixar de ter um funcionário superior ou técnico da Direcção Geral dos Monumentos Nacionais a orientá-lo, de quem, com certeza, partiam as instruções sobretudo quando faltavam os modelos originais. A explicação talvez esteja aí.

Mas, estas falhas repetem-se na pedra de armas da Rainha D. Isabel de Coimbra, mulher de D. Afonso V, esculpida no seu túmulo, e de seu marido, túmulo que data de 1901. A diferença inscrita é a de seu tio o Infante D. João e não a de seu pai o Infante D. Pedro. E repetem-se ainda na pedra de armas do Príncipe D. Afonso, seu neto, filho de D. João II, que, como príncipe real, não teria, segundo o pouco que sei, lambel no seu escudo.

A heráldica da Capela do Fundador precisa de atenta revisão dos especialistas na matéria.


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