João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Os dias de glória dos Madredeus (1ª parte)

Não são muitos, mas alguns músicos portugueses conseguiram ter uma carreira de sucesso para além fronteiras. Outros escreveram melodias que se tornaram clássicos a nível mundial. Contudo, o entusiasmo com que a música dos Madredeus foi recebida no estrangeiro, torna-a num fenómeno sem paralelo no panorama nacional.

Talvez esse fato se deva à sonoridade universal que este projeto criou, sonoridade que tanto é devedora da música de câmara europeia, como da música popular portuguesa e brasileira. Há nela também uma vertente lírica atlântica, quase obsessiva, que fala repetidamente do mar.

Os Madredeus são o resultado da reunião de músicos de dois grupos, designadamente da Sétima Legião e dos Heróis do Mar, e surgiram em 1985 quando Rodrigo Leão e Pedro Ayres de Magalhães encontraram-se para desenvolver ideias que passavam pela escrita de música para instrumentos acústicos.

Não tardou a juntar-se a eles um terceiro, igualmente oriundo da Sétima Legião, o acordeonista Gabriel Gomes. No ano seguinte, era a vez do violoncelista Francisco Ribeiro juntar-se ao grupo. Agora, faltava apenas uma voz que interpretasse as composições já escritas e assim completasse a sua formação. Encontraram-na em Teresa Salgueiro, descoberta num bar do Bairro Alto, em Lisboa, quando ela cantava fado.

Durante os ensaios que tinham lugar no espaço do Teatro Ibérico, situado no antigo convento da Madredeus, em Xabregas, Teresa Salgueiro revelou ser dotada de uma belíssima voz.

Estavam, pois, reunidas as condições para o grupo gravar material inédito e lançar um disco. O álbum, duplo, vê a luz do dia em dezembro de 1987 e, em alusão ao espaço físico onde a banda ensaiava, batizaram-no de Os Dias da Madredeus. Este trabalho de longa duração teve excelente acolhimento pela crítica e pelo público. O tema A Vaca de Fogo, um dos grandes responsáveis pela popularidade do disco, passou a ser presença assídua nas rádios, bem como o lançamento de uma cassete com onze temas serviu para melhor o promover.

Quase três anos depois é editado o sucessor de Os Dias da Madredeus que recebe o nome de Existir. Este inclui uma canção que literalmente explode nas rádios: é O Pastor. Outros temas, como Cuidado por exemplo, mereceram divulgação através de vídeos e permitiram à banda realizar uma grande digressão nacional, que passou pelo Coliseu dos Recreios em Lisboa e ficou registada no duplo álbum Lisboa de 1992. De referir que o concerto no Coliseu teve a participação de Carlos Paredes e de Luísa Amaro.

Entretanto, já os Madredeus haviam atuado na Bélgica, na Europália, uma exposição dedicada à cultura portuguesa. E deu-se o milagre grego, quando o álbum Existir chegou a número dois da tabela de vendas helénica e catapultou o grupo para o êxito europeu, muito graças à campanha publicitária de uma marca de whisky que utilizou O Pastor como banda sonora.

Impulsionados por tão bom auspício, os Madredeus agendam concertos na Grécia, mas também para Espanha, França e Holanda.

Em 1993, graças a uma decisão editorial, foram lançados a nível internacional e, a partir daí, a música do grupo pode ouvir-se nos cinco continentes. Ainda em 1993, o guitarrista José Peixoto é convidado a integrar a banda. E, nesse mesmo ano, os Madredeus lançam-se à conquista do extremo oriente. Com aparente facilidade seduzem novos públicos, e, em Outubro, o auditório japonês rende-lhes homenagem em alguns espetáculos de antologia que ficaram para a História da Música Portuguesa.

(Continua no próximo mês).


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