Francisco André Santos

Diacrónicas

Ohana quer dizer família

Discuto com colegas do trabalho aqui na Holanda o facto de, desde que cheguei, ter começado a reparar na utilização da palavra “partner”, que em português seria parceiro/a, ou seja, na nossa língua o género é assinalado. A palavra “partner” não revela o sexo do parceiro/a, tal como não apresenta o tipo de relação que existe entre as duas (ou mais) pessoas. A utilização da palavra também prevê outro tipo de ligações que não o casamento, mas ao mesmo tempo representando relações de longa duração.

Como (quase que já) é aborrecido o “até tenho um amigo gay”, em Portugal, aventuro-me a introduzir outros conceitos nesta crónica. Um amigo meu, por cá, menciona o seu filho enquanto explica o quão irritante é toda a série de questões que lhe são colocadas quando explica a simples ajuda biológica que deu a uma amiga. São aquele tipo de questões que perguntamos quando nos deparamos com algo que desconhecemos a nível de relações.

Não sei se resulta sempre, mas penso ter desvendado um truque para ficar a perceber melhor sem ofender ou cair no lugar-comum de perguntar com outra seriedade “quem é que veste as calças” ou “quando é que se casam?”. Em alternativa faço uma espécie de meta-questão – uma questão em relação à questão: “então e perguntam-te muitas vezes como é que vocês os dois se dão?” Se a sondagem do leitor o levar a ofensa, por favor que me informe. Necessitamos de maneiras de compreender o que não entendemos sem gerar desconforto.

Sem ofensa, esta última foi colocada a uma mãe a viver o conceito de co-parentalidade, quando dois pais/mães acordam em partilhar o dia-a-dia da criança. É como quem diz: “tu levas a criança de manhã à escola e eu vou buscá-la à tarde.” Apesar da separação, a responsabilidade e as decisões são partilhadas. Por certo que não é a única vez que oiço de discussões sobre opções a tomar para a criança.

Já o Cristianinho Junior e a sua família representam outro caso atípico, mas que nem por isso deveríamos considerar fora do normal. Por de trás de cada individuo está uma família. Outra família, composta por outros indivíduos. Cada um com a sua personalidade e história. Muita tinta corre sobre celebridades e os seus familiares. Até por escolhas que não são feitas proporcionadas a acontecimento. São muitas vezes os hábitos destas personalidades que trazem mundanidades atípicas ao nosso dia-a-dia. Mas no seu todo, representam fatos da nossa realidade a que nunca fomos expostos ou até ignoramos. Por escolha ou não, a nossa conivência é definida por um certo padrão de locais como a escola, empresa, ou bairro à qual outros padrões de relacionamentos estão associados. Tendencialmente partilhamos os mesmos hábitos e experiências com aqueles que nos são próximos. A sociedade é diversa e muitas vezes esquecemo-nos de quantas histórias, culturas e experiências existem em coexistência com a nossa realidade.

Finalmente, recordo o caso da Havaiana Nani, responsável pela irmã mais nova Lilo que várias vezes ao longo do filme define a palavra Ohana: “Ohana quer dizer família. E na família ninguém é deixado para trás, ou esquecido.” O Stitch é um cão estranho, adotado por esta Ohana. O Stitch é um extraterrestre feliz. O Stitch aprende na versão Portuguesa a tomar pastel de nata e café. Já o Francisco come “stroop waffels” de empreitada e no outro dia foi-lhe dito que “dava um pai muita fixe.” Não é estranho. É Ohana, e Ohana quer dizer que ninguém é deixado para trás… ou esquecido!


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