Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do passado

Odisseia Europeia (*)

Neste verão propus-me empreender uma Odisseia, mas hoje em dia tudo perde o seu encanto com os aeroportos e as suas burocracias. Comecei por pedir conselhos a vários amigos, altos conhecedores do mundo das viagens, só comparáveis com Bruce Chatwin ou Paul Bowles. Indicaram-me destinos ambiciosos: Tailândia; Vietname; Malásia; Índia; Japão… Ou seja a Ásia em todo o seu esplendor. Mas quando lhes contei que Ulisses não passou por esses locais todos, sem exceção, perguntaram que raio estava eu a falar. Quando falei numa Odisseia referia-me à original, descrita por Homero. Seria muito difícil levar a cabo tamanha epopeia, por isso, decidi ficar pela Europa. Sevilha, Paris, Bruxelas, Praga, Viena, Roma, Atenas…

Decidi que não apanharia um único avião, a papelada e o incómodo não valem o esforço. Tomei um comboio até Sevilha e visitei a Catedral e o Arquivo das Índias. Travei conhecimento com um poeta muito talentoso, todos o apelidavam de El Sabio, mas o seu verdadeiro nome era Alfonso. Tocava de maneira soberba um alaúde que trazia sempre consigo.

De seguida viajei até Paris, entre os seus museus e palácios. O Loire e Versailles eram magníficos. No meio das representações históricas, de extrema realidade diga-se, fui interpelado por um tal Alexandre, falou-me de vinganças e de três cavaleiros do Rei, que na verdade eram quatro. Sinceramente conhecemos cada pessoa hoje em dia. Imagino que sejam sinais dos tempos. Desculpem, estava a cair num lugar-comum, acontece a qualquer um. As chamas incandescentes dos candeeiros bruxuleavam nas ruas sombrias de Bruxelas, onde nas vitrinas reluziam baixelas. Nestes passeios noturnos avistei um rapaz de vinte e poucos anos, vinha com a mala cheia de papéis, era aquilo a que nós chamamos um desenhador. Perguntou-me se era viajante, eu assenti com a cabeça. Após esta descoberta, que o fascinou deveras, convidou-me para um copo, numa das cervejarias típicas da zona. Contei-lhe histórias das minhas mais variadas aventuras pelos quatro cantos deste mundo, tendo sempre em conta que nunca pus um pé fora da Europa. Georges Remi despediu-se e agradeceu a ajuda, pois para ele as viagens estavam apenas nos jornais e nos livros.

Para chegar a Praga foi uma pra… Digamos que foi complicado, não quero cair em facilitismos. Aquela cidade conservada no estilo medieval, transporta-nos para as lendas do golem e para a sua tradicional feira, onde todos afluíam na Baixa Idade Média.

Chegado a Viena esperava vislumbrar músicos portentosos, mas em vez disso conheci um dramaturgo muito interessado pelas teorias de Freud, admitiu até que o conhecia. Chamava-se Arthur Schnitzler, mas não entendi muito bem as peças que tinha em mente. Devo realçar que vi uma ópera de se lhe tirar o chapéu, mas como não tinha nenhum remeti-me a um prudente silêncio, dando a ideia de que era um crítico difícil de convencer.

Já tinha tudo arrumado, pronto para ir a Roma. Que cidade divinal, mas se calhar é melhor não dizer nada, tudo o que disser será pouco para a descrever. Devo apenas realçar uma frase que Giuseppe Gambardella, um escritor de talento impar, me disse um dia: “é tudo um truque”.

As folhas macias dos livros gastos e poeirentos serviam de almofadas para o meu rosto adormecido e rameloso. O despertador tinha tocado e devia partir numa nobre e fascinante epopeia, mais um dia nesta Lisboa coberta de turistas. Toda esta viagem tinha sido um logro, um devaneio de leitor. Sinto-me o único português na capital. Mas digam-me se não há maior Odisseia que ser turista no nosso próprio país?

(*) Dedicado a José Maria Camões e José Bernardo da Fonseca


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