Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do Passado

Ode Clássica dos Fantasmas Imemoriais

A presente narrativa continua a epopeia deste humilde cronista pelo ano de 1935, que havia sido deixada a meio, por vicissitudes várias, no mês de Junho de 2020.

O meu comboio saía do cais em marcha fúnebre, ao som da lira da tragédia grega, deixando a bela e renascentista Florença para trás. Naquelas ruelas e arcadas derramou-se todo o meu amor e esperança. Olhava pesadamente pela janela, a contemplar tanta paisagem idílica, digna de um fresco romano. Os carris findavam em território italiano e deslizavam para solo franco.

Refugiava-me na literatura que trazia sempre debaixo do braço, neste caso, o meu refugiu era um livro de Daphne du Maurier, “The Scapegoat”, mas apercebi-me que estava a sofrer de anacronismo compulsivo. É que aquele marco literário foi publicado 22 anos depois do ano onde me encontrava. A história relatava as aventuras e peripécias de um jovem professor de História Medieval, da Universidade de Oxford, por terras de França. Escondi apressadamente o livro e desencantei um exemplar da “Odisseia”, é sempre deslumbrante reler Homero.

A viagem prosseguia sem grandes sobressaltos, para além daqueles que a minha alma inquieta inventava. No meio da leitura compulsiva, senti que alguém se sentava a meu lado.

- Continue a ler e finja que não me viu!

- É o que estou a fazer – respondi ao desconhecido, sem nunca tirar os olhos das páginas.

- Vou passar-lhe um bilhete da parte da HELENA.

Peguei no papel imaculado e abriu-o. Continha uma mensagem do Álvaro de Campos, que rezava desta forma:

“Caro amigo, Francisco,

Pedi ao nosso colaborador Henri-Alban Fournier, que viaja incógnito, para lhe entregar esta mensagem de extrema importância para a nossa causa literária. Sabemos que irá estar presente na soirée intelectual na mansão do Sr. Waugh e precisamos de estar lá custe o que custar. Só queremos que nos ajude a infiltrar na casa e depois nós tratamos o resto. Estarei à sua espera no número 221B da Baker Street, levo sobretudo cinzento e olhar enigmático.

 

Cumprimentos do seu amigo e superior hierárquico,

Álvaro de Campos”

- O Senhor é Henri-Alban Fournier? – perguntei eu, dobrando a missiva.

- Ninguém sabe que eu sobrevivi à Grande Guerra e espero que continuem sem saber – respondeu o escritor francês.

- Pode ficar descansado, eu nunca contarei o seu segredo.

- Assim o espero, caro amigo.

Durante o resto da viagem tinha tantas perguntas para fazer a este poeta e romancista que tanto admiro, mas preferi remeter-me ao silêncio da leitura, porque Henri estava incógnito e desejava manter essa capa de invisibilidade sobre os seus ombros.

Passados uns dias, chegámos a Londres e fomos à morada indicada por Álvaro de Campos. A noite precipitava a sua aparição.

- Ah! Sejam bem aparecidos, nobres membros da HELENA – cumprimentava Álvaro.

- Boa noite, Álvaro! Já não o via há uns tempos. O que é feito de si? – perguntei com entusiasmo.

- Fui enviado para Londres, a fim de angariar novos membros influentes para a causa da HELENA – informava, acendendo um cigarro.

- E precisa de mim nessa altruísta missão?

- Francisco, não pode viver apenas dos seus artigos e contos, anseia por um propósito maior.

- Quem é que precisa de conhecer no sarau de Evelyn Waugh?

- Ora, o Sr. Greene, diplomata e espião.

- Para além de um grande romancista – completei a enumeração de virtudes de Graham Greene.

- E isso também. Sei que o conheceu há uns tempos no Hotel Savoy.

- É um facto.

- Nós acompanhamo-lo à festa, o que me diz? – disse Henri.

- Será um enorme prazer apresentar tão excelsos génios literários à intelectualidade britânica.

Entrámos no Bentley, mais um carro novo em folha do Álvaro de Campos, e arrancámos a toda a brida para a tão aguardada soirée.


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