José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (206)

O trajo regional, valor distintivo do Povo Português

É preciso ter sempre em mente que o trajo regional é o trajo camponês e, na orla costeira, o dos pescadores, com uma relação profunda com a actividade que exercem, com o clima local, com os materiais que lhes são mais acessíveis, com tradições cujas raízes dificilmente se encontram na lonjura do tempo. Como é preciso ter também em mente que um trajo só por ser antigo não é automaticamente regional. O chamado trajo burguês, que copia normalmente usos importados das cidades e do estrangeiro, não é distintivo dum povo ou duma região.

A Alta Estremadura, região a que pertencemos histórica e etnograficamente, que abrange todo o distrito de Leiria e o concelho de Ourém, e se começa sensivelmente no paralelo 40º naquela fronteira que o Dr. Pedro Homem de Mello tão bem definiu e a que chamou a “fronteira de Pombal” (“FOLCLORE” do Dr. Pedro Homem de Mello, edição da “Ática” de Lisboa, 1971), conseguiu preservar nos seus agrupamentos folclóricos pelo menos a última fase do trajo distintivo. E o trajo não é só o que se veste mas como se veste, estando frequentemente as distinções mais neste último aspecto.

Há anos publiquei neste jornal e noutros da região algumas considerações sobre este mesmo tema e reproduzi, a ilustrá-las, uma fotografia tirada em Julho de 1938, na Casa de São Pedro de Muel do Dr. Afonso Lopes Vieira, por altura da entrega do galardão de Filho Adoptivo da Batalha, concedido pela nossa Câmara Municipal ao grande Poeta e Pensador que, pela nossa Vila, revelara sempre um grande afecto. A fotografia foi tirada pelo meu Pai com uma máquina que ainda possuo. A fotografia mostrava três senhoras do Casal do Alho, que ali foram integradas na comitiva batalhense, as três envergando o nosso trajo regional. A mais velha com o chapéu-de-prato e as outras com chapéus janotas, mas todos inclinados sobre a testa. Esta fotografia está patente na sala das miniaturas do Museu Etnográfico da Alta Estremadura/ Casa da Madalena, na Rebolaria.

Entretanto tive acesso a numerosas fotografias tiradas em Leiria e na Batalha pelos últimos decénios do século XIX e primeiros do século XX, só da Batalha são dezenas, em que se pode reparar na mesma forma de usar o chapéu feminino. Sempre graciosamente inclinado para a frente. E é curioso referir, a este propósito, o que se diz no livro “EÇA DE QUEIRÓS = (Memórias da sua Estada em Leiria) 1870-1871”, de Júlio de Sousa e Costa, estada em Leiria que faz agora 150 anos, o que o autor escreveu sobre uma linda rapariga da Reixida, que vinha vender ao mercado de Leiria, e que Eça namoriscou: “… dona de belíssimos olhos pretos; cabelos castanhos claros, ondeados; donairosa; seio opulento e tremente, galantíssima; de lindo sorriso aliciante, sempre bem vestida à moda do termo de Leiria, usando chapelinho redondo, muito engraçado, inclinando um pouco sobre o rosto bonito…”.

Uma das muitas fotografias tiradas há mais de cem anos na nossa região, neste caso no mercado de Leiria, recorto-a, agora da colecção, que recomendo aos meus prezados leitores, denominada “Memória de Portugal”, distribuída pelo diário “Correio da Manhã”. Foi reproduzida no nº 13 desta colecção, dedicado às nossas cidades. Na belíssima imagem do fotógrafo de origem checa Friedich Wilhelm Feilchenfeld, datada de 1909, camponeses e camponesas leirienses mercadejam, no caso a típica cestaria regional. As mulheres com os lenços de cabeça postos ora com as pontas atadas ora soltas e os chapéus sempre inclinados sobre a testa, exactamente como também se pode observar nas fotografias de Dezembro de 1901 vindas a lume na revista “Brasil –Portugal”.

Na mesma fotografia podem ainda ver-se num homem e num rapaz os carapuços postos com a borla caída sobre a nuca, informação que se obtém em muitas outras fotografias.

Desta preciosa fonte recebemos ainda indiscutíveis dados sobre as distinções na forma de trajar, pelo menos nos concelhos da Batalha e de Leiria, no que respeita aos xailes das mulheres e às cintas dos homens.

As cintas, nas tarefas agrícolas todas enroladas e nos trajos domingueiros com as duas pontas caindo, separadas, atrás. Cintas pretas e nalguns dias de festa e Domingos cintas vermelhas, isto em épocas mais recuadas. (Ver “ETNOGRAFIA – Alta Estremadura 1” do Dr. Adélio Amaro.

A propósito desta obra recordo que a sua leitura é imprescindível para um conhecimento das distinções etnográficas da nossa província natal e muito particularmente da Alta Estremadura em que nos inserimos.

Deve, porém, ter-se em consideração que a alto-estremenha Nazaré tem características muito próprias, por isso nem sempre coincidentes com as da restante região.

Também sobre estes pormenores ficaram-nos lições preciosas dos mestres António Pereira Marques, Francisco Gomes Calado, Manuel Artur Santos e Professor José Ribeiro de Sousa. A que agora junto o saudoso Dr. Joaquim Ribeiro Gomes Calado, falecido nos finais do ano passado, figura inesquecível da nossa Cultura, de que foi incansável defensor e divulgador, a quem devemos ainda uma memória que o recorde e o exalte e nos incite a copiar o seu exemplo.

A reconstituição dos aspectos distintivos regionais reveste-se, hoje, duma importância enorme, tarefa a que os Ministérios da Cultura e os Governos devem estar atentos e dedicar alguma da sua acção e algumas das suas verbas, tendo sobretudo em conta que são afinal os alicerces em que assentam a nossa criatividade e a nossa originalidade em termos colectivos.

 

Continuamos a destruir o nosso Idioma

 

A tremenda epidemia que, inesperadamente, veio trazer-nos medos e aflições que julgávamos impossíveis no nosso tempo, também afectou o nosso Idioma com o uso e o abuso de dois termos ingleses que caíram no goto inclusivamente dos bem falantes e que se vêm juntar, embora já por cá andassem, à multidão de anglicismos que corroem a Língua Portuguesa: um é o lay-off, que também vejo escrito layoff, outro é o take-away. Creio que seria um óptimo serviço, a prestar à nossa Cultura, o Ministério da Cultura e as Academias empenharem-se na sua tradução. Lay-off que será, mas os entendidos o emendarão, suspensão de contrato e o take-away que poderá ser levar ou levar para fora que, no caso dos restaurantes, se compreenderá que será levar comida.

O meu pobre português, de que sou um humilda aprendiz, não dá para mais.

Infelizmente, continuo a vero total desinteresse dos governos e dos políticos pela defesa do nosso Idioma. E o Idioma é ou não o alicerce principal da nossa Cultura? Se é, estamos a deitar abaixo, pedra a pedra, todo o edifício.

 


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