João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

O rock é uma passagem para a outra margem

Certos grupos de rock, pela sua inovação, revelam-se marcantes na época em que aparecem e também para o futuro. E poucos, como os portuenses Jafumega, foram tão importantes no panorama musical português do início da década de oitenta do século passado.

Basta recordar que fazia parte deste grupo Mário Barreiros (na guitarra), um dos mais brilhantes produtores da atualidade. Para além de Mário Barreiros, integravam a formação dos Jafumega outros dois irmãos Barreiros, Eugénio (nos teclados) e Pedro (no baixo). Juntaram-se aos irmãos Barreiros o vocalista Luís Portugal (um transmontano oriundo de Vila Real), o saxofonista José Nogueira e o baterista Álvaro Marques.

No princípio, quando da criação do grupo, pensou-se mesmo em convidar o pianista e compositor António Pinho Vargas. O que não se concretizou. A verdade é que o núcleo duro da banda vinha já do projeto Mini Pop que na década de setenta tivera reputação de ser um dos melhores grupos de cariz juvenil do norte do país.

Foi com esta formação que o grupo assinou contrato com uma pequena editora lisboeta e para a qual gravaram, em 1979, o seu primeiro álbum: Estamos Aí. Este disco era integralmente cantado em inglês e a nível estético aproximava-se do jazz, principalmente da música de fusão de Herbie Hancock, de Miles Davis ou dos Weather Report.

Mas depressa optam por cantar em português. Assim, na mesma editora, em 1982 lançam o single Dá-me Lume. Este single trazia no lado B um tema que, nos nossos dias, teria sido viral, tantas vezes o divulgaram as rádios naquela época: falamos de Ribeira, com o seu famoso refrão de A Ponte é uma Passagem para a Outra Margem. Para além das influências do Jazz, Reggae e Funk, Ribeira aproximava os Jafumega à sonoridade dos britânicos The Police.

O sucesso desta canção teve uma tal dimensão que fez com que o grupo mudasse de selo discográfico, trocando-o por outro com representação internacional e um dos maiores do mercado português.

Para esta grande editora, gravaram dois registos de longa duração: o primeiro, em 1982, sob o homónimo Jafumega; o segundo, em 1984, com o título Recados. Lançaram também singles com temas clássicos como Latin’America, Romaria ou La Dolce Vita. Também, para a posteridade, ficaram músicas que ainda hoje passam nas rádios como Nó Cego ou Kasbah.

Os Jafumega foram um cometa que traçou no céu da música portuguesa alguma da sua luz mais admirável. E isso já estava presente nas suas atuações ao vivo, caracterizadas por grande brilhantismo, fruto da capacidade técnica dos seus músicos. Basta recordar a prestação ao vivo na edição de 1982 do Festival de Vilar de Mouros, em que fizeram a primeira parte do concerto dos irlandeses U2.

A música dos Jafumega era completamente diversa de tudo o que se fazia naquela época, com o rigor técnico dos teclados, os magistrais solos de saxofone e o ritmo da bateria. A isto, destacava-se a originalidade das vocalizações, o compasso do baixo e a forma quase jamaicana de tocar guitarra. Isto está bem patente no eterno Ribeira, que constitui um compêndio de como se faz uma revolução na música. Breve, mas incisiva e marcante. O que fez com que o legado dos Jafumega se reflectisse em outros músicos e grupos, tais como em Pedro Abrunhosa, nos Clã ou nos Silence 4.

Os Jafumega lançaram, na sua totalidade, três álbuns e cinco singles. Talvez não seja muito, mas para ficar na história da música não se exige quantidade, mas qualidade e originalidade. Em 1985 a banda chegou ao fim e cada um dos seus elementos seguiu o seu próprio caminho. Mas, para trás, deixaram um trabalho magnífico que merece ser celebrado e nunca deve ficar no esquecimento.

 

 


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