Valente dos Santos

Ex-diretor do Campo Militar de São Jorge

O património e as pessoas

Património, material e imaterial, herança de gerações anteriores, é memória que se procura transmitir, enriquecida, a vindouros. Tem ligação com gente em união feliz do património (sustentabilidade), garantia para as pessoas de desenvolvimento social e cultural.

Quem passa pelo terreiro onde se travou a batalha real repara com desencanto a moldura de abandono e ausência de referências. É difícil entender a omissão pois “o terreno é palco e personagem, condição e possibilidade, promessa e desafio” (José Matoso),importante por explicar o feito que confirmou a independência de Portugal, que como está não ajuda a explicar e partilhar, conforme compromisso público assumido. O terreno com os seus vestígios coevos é importante por explicar o confronto, que exigem respeito e salvaguarda.

A morte de D. Fernando sem descendência varonil (tratado de Salvaterra de Magos) levou D. João de Castela a invasão, para fazer valer os direitos da mulher ao trono de Portugal, com numeroso e bem armado exército pela Beira Alta e vale do Mondego até Coimbra, indo depois para Sul a Santarém para alcançar Lisboa capital, que tomada garantia o reino.

A hoste portuguesa acompanhava o movimento ao ir de Abrantes para Tomar e Porto de Mós a afrontar o invasor em local que compensasse o desequilíbrio das forças antagonistas. O sítio escolhido, estremo Norte do planalto de Aljubarrota, definido pelas ribeiras da Calvaria (Norte), Madeiros (Oeste) e Vales (Este), facilitava a defesa portuguesa e dificultava a movimentação invasora que atacou de Sul.

O Condestável complementou a defesa natural com obstáculos artificiais (fossos, covas de lobo e abatises) criados pelos 1000 enviados pelo abade de Alcobaça, que condicionaram o desenvolvimento e final da batalha. Os obstáculos, batidos pelos projéteis da defesa serviam para orientar, retardar e causar baixas ao atacante.

O abandono do projeto arqueológico, iniciado por Afonso do Paço e Helena Catarina é incompreensível, pois estão por descobrir muitas covas de lobo e por conservar muitas das expostas.

Os moradores mais idosos relembram a aldeia que nas efemérides recordava os caídos no confronto com rezas e deposição de flores no marco de pedras, junto à capela onde tinham sido sepultados. É necessário refletir para acabar com a situação, negativa a todos os títulos, que a todos os diz respeito. Almeida Garett, 1847, referia que “o conhecimento do povo força a consideração em muitas vertentes (comportamentos, tradições, virtudes, crenças e erros).

Seria bom termos presente o aviso.


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