Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do Passado

O oeste hipster

Parece que dita a norma que quem nasce na região de Leiria será hipster, quase como uma profecia lendária. Esse epicentro, onde todos os caminhos da mais alta e emergente produção artística independente vêm dar. E a História encarregou-se de nos mostrar que é verdade. Eu não queria dar razão a este chavão, a uma regra dogmática que me inquietava, mas acabei por ter de a corroborar, com tamanho pesar.

Deambulava pelas ruas de Lisboa, com aquele passo de Alvalade ao fim do dia, quando me deparo com a frenética sensação de extravasar emoções e conceitos profundos obtusos, enquanto fumo a minha cigarrilha pensativa e inconsciente. Pedi uma cerveja artesanal num bar do Cais do Sodré.

- Queria uma cerveja raposa, daquelas que aparece com aquele ar de indecente ouve tudo e não se esquece, quando volta está diferente, por favor!

- O meu amigo está contaminado pelo vírus do hipsterismo.

- Acha?

- Ou então é de Leiria, mas isso seria algo insólito.

- Pois, é que eu sou de Leiria…

- Já podia ter dito, as bebidas são por conta da casa. Mas conte-me, tem algum projeto na calha? Já sabe, se precisar de um espaço para atuar, tem aqui um estaminé ao seu dispor.

- Por acaso, tenho alguns livros na calha…

- E um EP, suponho.

No meio desta conversa, junta-se o músico residente do bar e passa-me a guitarra elétrica para as mãos, dizendo:

- Mostra-nos a tua arte!

Sentei-me num banco alto, em frente ao microfone, sem saber bem o que fazer com a guitarra. Comecei por dedilhar umas cordas ao calhas, enquanto vociferava uns poemas que escrevera em tempos mais trágicos e moribundos. A plateia, distribuída pelas mesas, encharcados em cervejas de vasto teor alcoólico, aplaudia entusiasticamente, num misto de emoção e intelecto refinado. Esta era a conversa que se ouvia por toda a sala:

- Quem canta assim é de Leiria, estes artistas vêm todos de lá.

- Deve ser da água ou de qualquer coisa que comem por aquelas paragens.

- Quem me dera ser de lá, parece que nascem com o rabo virado para a lua.

Não liguei a este incidente, mas o facto é que já tenho concertos marcados para a Galeria Zé dos Bois, desculpem a ZDB, agora nem parecia um hipster a falar.

Há coisa de uns meses, dei por mim a comprar uma máquina de escrever na Feira da Ladra. Agora transporto-a numa maleta de um lado para o outro. Dá imenso jeito para anotar ideias desconexas e presas por fios nas teias do meu ser. Os óculos de massa são parte da minha fisionomia e até deixei de reparar se tenho a barba aparada. A pouco e pouco, vou-me tornando numa espécie de artista underground, que renega toda a música comercial, mas isso sempre reneguei. O que me apercebo agora, é que sempre fui assim, é algo intrínseco aos autóctones das margens do rio Lis. Meu Deus, mas porque é que me fizeste nascer numa localidade tão próspera e rica a nível cultural e artístico? Que mal fiz eu, para merecer tamanha dádiva e responsabilidade?

Ando envolvido em serões noctívagos de poesia, vejam bem a devassidão deste literato sem pasta. No outro dia perguntaram-me se não queria publicar por aquelas editoras a retalho, com nome de bairro turístico lisboeta, onde quem paga é o autor. Imagino que seja muito chique e à moda estoirar dinheiro e ficar a ver navios, mas como sou da Batalha, e consequentemente de Leiria, tenho uma coisa a que chamamos inteligência e bom-senso. Essas duas armas impedem-me de fazer disparates. O único problema da ser hipster é estar a leste da sociedade e só saber falar através de letras de bandas indie, para além de não me deixarem fumar em sítios fechados, que desmancha-prazeres.

Até as costumeiras peregrinações dos hipsters ao Porto, não são novas para mim, pois, já comungava desse hábito há muitos anos.

No momento em que escrevo estas linhas tenho convites para ir ao Paredes de coura e propostas de parcerias com artistas emergentes, ou não. Se falo de Kafka, já tenho o público garantido, se me debruço sobre Nietzsche, oferecem-me um prémio literário, mas se cito Herberto Hélder, tenho um convite muito simpático para ir gravar num estúdio no Alvito.

 


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