João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

O novo mundo de Rodrigo Leão

Ao longo da história da cultura europeia, a música de câmara sempre esteve vocacionada para pequenos espaços e limitada a um auditório reduzido, senão mesmo dirigida a um pequeno número de pessoas. Contudo, há exceções. É o caso de Rodrigo Leão cujos trabalhos discográficos têm conhecido uma enorme divulgação, quer em Portugal, quer fora do nosso país. O que não surpreenderá na medida em que, para além de ser membro fundador da Sétima Legião e ter liderado o projeto Os Poetas, integrou os Madredeus, o grupo musical com mais sucesso internacional da história da música portuguesa.

Mas em 1993 Rodrigo Leão decidiu encetar uma carreira a solo, com a publicação de Ave Mundi Luminar, álbum em que era acompanhado pelo vox ensemble, conjunto de músicos de excelência onde brilhavam Teresa Salgueiro, Francisco Ribeiro e Gabriel Gomes.

Este disco conheceu bom êxito, alcançando os primeiros lugares das tabelas de vendas, fator que foi decisivo para que Rodrigo Leão abandonasse em definitivo os Madredeus em 1995 e passasse a dedicar-se exclusivamente à composição em nome próprio.

Em 1996 edita Theatrum, o seu trabalho que tem maior afinidade com a nova música de câmara europeia, repleto de referências às sonoridades de Michael Nyman, Hector Zazou ou Arvo Part. Quatro anos depois é lançado Alma Mater, seguindo-se o original Cinema, datado de 2004, disco onde participa o nipónico Ryuchi Sakamoto, sendo ele uma das principais fontes onde bebeu Rodrigo Leão.

A Mãe e A Montanha Mágica, respetivamente de 2009 e 2011, terão como sucessor um dos álbuns mais ambiciosos do compositor: O Retiro, datado de 2015, com Orquestra e Coro Gulbenkian. O Retiro inclui a faixa Florestas Submersas, tema que conjuga na perfeição os instrumentos de música de câmara com a eletrónica mais experimental, a revelar que o seu autor é capaz de viajar por territórios tão díspares que vão do erudito, percorrendo o eletrónico, até à música de cariz mais popular.

E é esta apetência pela cultura popular que o levou a convidar para acompanhá-lo nomes tão importantes da pop mundial como são Stuart Staples, dos Tindersticks, Beth Gibbons, dos Portishead, ou Neil Hannon dos Divine Comedy.

O seu mais recente disco de originais resulta precisamente de uma colaboração, com Scott Matthew, vocalista da banda de rock australiana Elva Snow. Este disco, batizado de Life is Long, veio a lume em 2016. Destaque também para as bandas sonoras que compôs, tanto para documentários, como para filmes, como seja a música para o filme The Butler (O Mordomo), realizado por Lee Daniels em 2013.

Se contarmos com o período de tempo em que fez parte, primeiro como baixista da Sétima Legião, e depois como teclista dos Madredeus, a sua carreira é bastante mais longa que os vinte e cinco anos de trajeto musical que presentemente completa. No entanto, o aniversário que está a celebrar conta-se a partir da edição em 1993 de Ave Mundi Luminar. Vinte e Cinco anos que tiveram direito a edição discográfica comemorativa e respetiva digressão com concertos ao vivo.

O disco, esse chama-se simplesmente Aniversário, e engloba algumas das peças musicais mais emblemáticas retiradas de diferentes álbuns. Entre faixas cantadas e instrumentais, o que sobressai é a qualidade orquestral, com uma envolvente belíssima, pontificada por uma voz ou coros angelicais. E entre colaborações e temas a solo, Rodrigo Leão tem desbravado um novo mundo que deu a conhecer ao mundo.

Muitos parabéns!


NESTA SECÇÃO

Nas Dunas com o Grupo Novo Rock

Os GNR (sigla de Grupo Novo Rock), como a maioria dos grupos de música moderna, tiveram o se...

Retrospetivas e perspetivas

É comum a imprensa em geral, através dos seus quadros e colaboradores, antes do final de cad...

O caça-sonhos que já não caça sonhos

Tenho um caça-sonhos no varão dos cortinados do meu quarto. Sempre gostei daquela peça feita...