Joana Magalhães

Pestanas que falam

O Natal são os doces da avó

Natal é sinónimo de reunião. Reunião da família. Reunião dos amigos. É a altura do ano em que nos lembramos de todas as pessoas queridas que, ao longo do ano, estiveram ao nosso lado e permitiram de alguma forma que chegassemos ao fim.

Do Natal, a memória mais querida de infância que tenho é a bancada da cozinha de casa da avó cheia de doces, mesmo naquela quantidade que parece industrial, mas que depois se reflete sempre o fundo do prato. É o cheirinho a aletria acabada de fazer e a bolo de iogurte. São aquelas filhoses crocantes que já toda a gente está a comer ainda antes do bacalhau. Em casa da minha avó são também as bolas de chocolate na árvore de Natal, aquelas que só se podem comer no dia 25 e não no dia 24 mas que eu, juntamente com o meu irmão, comíamos às escondidas. Era isso e a espera até à 00h00, hora em que o meu tio permitia que as prendas fossem distribuídas e abertas. Que sofrimento que era esperar. "Tio, falta muito?!". Depois era chegar a casa, vestir o pijama e ver com os meus pais um filme de Natal com as prendas em montinho no chão. Sim, porque o Kevin todos os anos é deixado sozinho em casa e o Grinch nunca chegou a roubar verdadeiramente o Natal. Essas são as memórias quentinhas e cheirosas de quando era criança.

Hoje tudo isso continua igual. E ainda bem. Só que hoje há mais doces, porque não pode faltar um bolo rei clássico e um de chocolate da "sogra". Há mais amigos secretos e alguns dos embrulhos debaixo da árvore eu já sei o que têm, porque os comprei. Este ano há também um novo membro na família, um felino, que também terá direito às suas prendas. Mas a base do Natal mantém-se. Os doces da avó, o rigor do tio e o filme com os pais e o irmão. Embora o Natal hoje seja mais do que os doces (até porque a barriga já não aguenta como antigamente) e seja, também, mais do que as prendas. O Natal hoje é a família e são os amigos. É colocar em perspetiva todo o ano que passou e olhar para as pessoas que nos acompanharam como a melhor prenda que poderíamos ter tido. Numa altura em que tudo muda, tão rápido, e tão instantaneamente, o Natal é olhar para o lado e ver os outros e agradecer por os outros, tal como nós, ainda lá estarem.

Este Natal espero que o Kevin continue a ser deixado sozinho e casa, que o Grinch não roube o Natal, que a casa cheire a doces da avó e que o meu tio só deixe abrir as prendas às 00h00. Mas ainda mais do que isso, espero que estejamos todos reunidos, os que cá estão e os que já não podem estar e que nos lembremos que para o ano vai ser tudo igual.


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