Município da Batalha - Museu da Comunidade Concelhia da Batalha

Espaço do Museu

O museu dos sentidos. Ouvir

Nos tempos atuais, a imagem é pioneira de atenção, sintetizando discursos, resumindo palavras e economizando (pretensamente) o nosso tempo. Estática, em movimento ou a várias dimensões, é cada vez mais apelativa, respondendo aos avanços tecnológicos e satisfazendo utilizadores de todas as idades.

Porquê falar da imagem quando o título deste texto nos remete para o som? Os conhecedores dos audioguias do MCCB já terão pressentido o sentido deste enquadramento.

“Queremos que a sua visita ao MCCB seja agradável e produtiva. Preparámos para si um audioguia que lhe contará a história deste Museu e que o orientará no espaço”. Esta é uma das gravações que se pode ouvir no sistema áudio do museu, num convite a uma visita que se acompanha através da voz e do som.

São 29 locuções que contam uma narrativa histórica, encaminhando uma visita guiada e autónoma ao museu. Até aqui, nada de muito diferente relativamente a outros sistemas semelhantes.

Mas este percurso sonoro não é apenas uma visita guiada. É também uma experiência sensorial humanizada. A voz que descreve os conteúdos da exposição é complementada com outras vozes: as vozes da terra, as vozes dos investigadores, as vozes da inclusão. O audioguia contém testemunhos de pessoas do concelho que, de alguma forma, participaram na construção da história, da economia e da cultura da Batalha.

No audioguia podemos ouvir António Batista, antigo mineiro, descrevendo o dia-a-dia da sua atividade: “Eu, logo pela primeira, fui trabalhar como vagoneiro, transportar o carvão do fundo do poço onde havia um guincho. Era acartar as vagonas cheias e outras vazias para cima lá para as galerias. Era viver para não morrer”. As palavras do saudoso trabalhador do Couto Mineiro de Lena ficarão perpetuadas na nossa memória, em sua homenagem.

“De inverno e de verão, vínhamos a pé para a escola… Escola para rapazes, escola para raparigas, completamente apartada… Havia a cantina escolar…” estas são as palavras de Cecília Calé, recordando a sua infância escolar.

Podemos ouvir ainda o fascinante achado dos fósseis de dinossauro em Casal Novo, narrado por Rui Pinheiro: Andava num passeio matinal, aos domingos costumava fazer uns passeios pedestres, e passo num local onde observo que no chão está uma pedra fossilizada.

As palavras, ditas na primeira pessoa, enriquecem a experiência de quem visita o MCCB, numa relação mais profunda e emotiva entre museu e exposição e que não descura o rigor científico. Também especialistas em várias áreas (Geologia, Arqueologia, História, Arte…) são ouvidos no sistema áudio, contextualizando os objetos expostos.

Para quem não vê com os olhos, a experiência sonora é particularmente relevante. O audioguia, para além dos conteúdos referidos, dá orientações sobre o espaço (áreas, escadas, elevador…) e inclui audiodescrição de objetos que podem ser tocados. Esta descrição técnica permite ver através do som e do toque.

A audiodescrição que o Museu dispõe sobre o quadro (2mx2m) alusivo à Batalha de Aljubarrota, e que se complementa com uma réplica táctil, é exemplo deste recurso e pode ser usufruída por todos (com ou sem deficiência visual). Arriscaríamos a dizer que, mais do que uma audiodescrição, é uma menção poética alusiva à obra de arte e sobre a importante batalha que nos garantiu a independência. Eis algumas das palavras que audiodescrevem a pintura: Sentado, de costas direitas e cabeça erguida, os dois pés firmes no chão, aquele que será D. João I. Ensaia-se-lhe apenas o semblante num esboço de rosto que se deixou velar por mais uma camada de tinta.

As palavras faladas elevam, assim, a experiência que se vive no Museu. Elas criam imagens sonoras que, aliadas a outras formas de comunicação, tornam a visita memorável.

Convidamos todos os leitores a viver a experiência do ouvir. O museu está aberto de quarta-feira a domingo (10h00-13h00; 14h00-18h00). Aos primeiros domingos do mês, para todos os residentes e naturais do concelho a entrada é gratuita.

LEGENDA DA IMAGEM:

Gravações para os audioguias. Josélia Neves (Resp. pelo projecto de acessibilidade) e José Travaços (entrevistado). Imagem de 2010


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