Francisco Oliveira Simões

Crónicas do Passado

O mistério do Natal em novembro

A história que vos vou contar é assustadora e tenebrosa, não é para almas frágeis, nem para estômagos fracos.

Encontrava-me por Londres com o meu amigo António e ao ver todas as decorações e luzes ofuscantes, num mar de pinheiros de plástico vibrante, percebi logo que me encontrava num conto de Natal, mesmo que ainda fosse novembro e os sinos não se dignassem a tocar, que desfaçatez.

Tínhamos curiosidade em visitar o Museu de História Natural, esse monumento opulento e incomensurável. Entrámos no salão inicial e vislumbramos esqueletos e mais esqueletos. Ora de animais jurássicos, ora pré-históricos, ou até mesmo contemporâneos, vejam lá bem o empenho destes investigadores incansáveis.

Mas de repente o nosso coração parou e ficámos especados a olhar para aquela cena horrenda e decrépita. O sangue escorria em cascata pelo pavimento de mármore (na verdade não se via nem uma gota sanguínea, mas para a narrativa ficar mais interessante digamos que estava tudo alagado). Estará o leitor a pensar o que terá sucedido? Sim, era uma morte, mesmo à nossa frente. Ficámos abalados, mas corri logo a avisar os funcionários, que se limitaram a encolher os ombros e a gesticularem. Enquanto isso, o António recolhia amostras do local do crime e analisava as pistas, tal e qual Sherlock Holmes. Na verdade eu sou mais o John Watson desta aventura, gosto de escrever e para mim isso basta.

Como ninguém parecia muito traumatizado com aquele incidente, nós tomámos as rédeas da ocorrência e demos logo o caso como aberto. Delimitámos o perímetro da área do crime, apesar da desconsolação dos visitantes que se negavam a que fosse feita justiça. O Museu ofereceu-nos gentilmente uma sala para reunirmos com os suspeitos e possíveis testemunhas (ofereceu é como quem diz, entrámos num gabinete qualquer e usámos a nosso bel-prazer). Começámos por um turista que falava muito alto e ameaçava peças museológicas com uma arma branca aguçada. Quando o confrontámos o suspeito ergueu a arma letal, à qual ele carinhosamente deu o nome de selfie-stick, pedindo para tirarmos uma fotografia, nós recusámos, mas ficámos com ele debaixo de olho. De seguida tentámos chegar à fala com alguém da direção do Museu, mas ninguém se mostrou muito interessado.

É impressionante como toda a gente estava alheada com o sucedido, não é todos os dias que morre uma rena, ainda para mais tão perto do Natal. Será que Os Capitães d´Areia tinham razão quando afirmaram na sua Canção de Natal, “Rodolfo, a rena, teve um enfisema, faltou ao Natal”? Vamos descobrir.

Os interrogatórios prosseguiram, com a entrevista a um assistente de exposição. “Não sei de nada” foram as únicas palavras que brotaram deste inocente funcionário, e quem somos nós para duvidar. A rena continuava ali estendida, pondo fim ao espírito natalício que já se fazia sentir neste mês de Novembro.

De súbito ouvimos sirenes e ficámos mais descansados, deviam ter chamado a Scotland Yard, já não era sem tempo. O que não sabiam eles é que já tínhamos descoberto o homicida e íamos tomar as devidas providências. Mas quando os agentes da polícia se dirigiram a nós já vinham com um ar enfadado, e começaram a dizer que estávamos a incorrer em variados distúrbios ao normal funcionamento daquele espaço museológico. Informámos do assassinato, ao que um agente nos respondeu: “Mas isso é um veado embalsamado”. Nesse preciso momento entendemos que nos tinham armado uma cilada. Fomos parar à prisão, mas acabámos por sair passado poucos segundos.

Entretanto no museu, o assistente de exposição olha vidrado para a rena caída, quando anteriormente repousava lá no alto suspensa por fios.

- Agora tens o que mereces, nunca mais me olhas daquela maneira. Os dois detetives não eram burros nenhuns, mas à conta do suborno a polícia vai pô-los longe da minha vista por uns tempos.


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