O Mistério da morte de D. João II

"D. João II Pro Lege, Pro Grege Príncipe Perfeito, firmei a aliança entre a lei e a grei, domei homens pérfidos e cabos tormentosos e transformei as Tormentas em Esperança. Soçobrei quando o destino se arrogou a vingança dos que justicei e só me deixou cumpri-lo na árvore que plantei, porque os frutos nunca os saboreei."  

Embora já não sendo sobre a Sacristia do Convento da Batalha, aproveito a reeleitura da obra do Cardeal Saraiva, a bem elaborada e muito rigorosa e tão espantosamente completa “Memória sobre as Obras do Real Mosteiro de Santa Maria da Vitória…” para relembrar a passagem que o célebre frade beneditino e patriarca de Lisboa dedica a el-Rei D. João II e ao seu túmulo precário (na altura) existente na capela absidal da Senhora do Pranto ainda no século XIX:

“Passando da capela mór à outra que lhe fica imediata para o lado da epístola, e que é dedicada a Nossa Senhora da Piedade (em outro tempo a Nossa Senhora do Pranto) achamos aí o túmulo, em que estão depositados os restos do senhor D. João II, como já em tempo de Frei Luís de Sousa, e muito antes, estava o seu corpo, trasladado da Sé de Silves em 1499.

“Subia-se a este túmulo por sete degraus de madeira postos em quadrado, chapeados de bronze; e a caixa externa do túmulo, que sobre eles estava, e também era de madeira e do mesmo modo chapeada, tinha três chaves de que eram depositários o prior do convento, o sacristão mor e um padre dos mais anciãos. Achamos em lembrança antiga que a duquesa de Aveiro, visitando o túmulo em 1544, o mandara reformar do sobredito modo.

“O que é certo e indubitável é que ali estava e esteve, por mais de 300 anos (isto em 1809), inteiro o corpo daquele soberano, que nós mesmo, no ano de 1809, por benigna condescendência do prior que então era, vimos, e com as nossas mãos apalpámos, não lhe achando outro defeito mais que a extremidade do rosto, na barba, já um pouco gastada do tempo.

“Na invasão do exército francês, em 1810, padeceu este respeitável depósito os efeitos da barbaridade com que a soldadesca sacrilegamente violou todos os Reais túmulos, e hoje somente se conservam (em 1823) os restos informes, que a religiosa piedade do actual benemérito prior (que também o era então) o Padre Mestre Frei Francisco Henriques de Faria, pôde recolher de entre ruinas e entulho, e que ali se tornou a depositar, reformando os degraus e caixa de madeira, tal como ora existe…”.

De 1901, ano da trasladação definitiva para a Capela do Fundador, não tenho, embora possa haver, qualquer notícia sobre os restos mortais de D. João II, que, creio ser possível estarem ainda como quando os frades piedosamente os resgataram dos destroços causados pelos soldados napoleónicos e os repuseram no túmulo de madeira, cuja arca tumular ainda deve conservar-se no Mosteiro.

Se os ossos e tecidos do Soberano se encontrarem no mesmo estado do denunciado em 1811 pelos dominicanos, ainda será viável, à luz da Ciência do século XXI, um exame que determine as causas da sua morte. Como se sabe, no seu século chegaram a correr rumores de que teria sido envenenado o que não se estranharia dada a sua política de aproximação e defesa da classe popular e o seu apurado sentido de Estado, bem expressos na divisa “Pro Lege, Pro Grege” (Pela Lei e Pelo Povo). Isto e o seu espírito inovador e empreendedor com certeza que lhe acarretaram inimizades que, na sua cegueira, poderiam ter levado a este trágico remate.

Mas só uma investigação feita nos mais avançados moldes científicos o poderá descobrir. Ou já não será possível?

José Travaços Santos Apontamentos sobre a História da Batalha (170)


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