Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do Passado

O cronista no divã

Já devem ter notado que os artigos que tenho publicado são sempre estranhos e desconcertantes. Por estas razões e por outras, que agora não vêm ao caso, decidi visitar um amigo recém-diplomado em Psicologia. Saí de casa e caminhei até ao seu apartamento, infelizmente ainda não arranjou um consultório decente e à altura da sua pessoa. Toquei à campainha e fui logo recebido no segundo andar.

- Boa tarde, Sr. Psicólogo da Mula Russa – Cumprimentei em tom de gozo.

- Não gozes, Francisco – respondia ele zangado – Então andei eu a esforçar-me neste curso, para agora ser achincalhado.

- Desculpa, é que não fazia a mínima ideia que estudavas Psicologia. A última vez que falámos estavas na licenciatura de Engenharia Civil.

- As pessoas estão sempre a tempo de mudar, percebi que o meu caminho era outro.

Depois das cortesias habituais, iniciaram-se as formalidades inerentes ao posto do meu anfitrião.

- Podes deitar-te na marquise!

- Quiseste dizer marquesa.

- Como? Eu cá não tenho títulos nobiliárquicos. Vá, deita-te lá no chão da marquise, que eu até a renovei toda em caixilharia de alumínio.

- Pensei que me iria deitar numa chaise-longue ou coisa parecida.

- Tu é que tens paciência para o xadrez, que seca de jogo. Porque carga de água te iria pedir para te deitares num tabuleiro de xadrez?

Lá lhe obedeci e estiquei-me ao comprido naqueles mosaicos frios da cozinha, enquanto ele se sentava numa poltrona, com um cachimbo curto na mão, por onde fumava numa pose pensativa e diletante.

- Conta-me o que tens sonhado?

- Não me recordo muito dos sonhos, mas sei que têm a ver com o vírus que agora nos assola.

- Isso quer dizer que tens falta de fruta em casa.

- Não percebo a relação entre essas duas circunstâncias. Viste isso no dicionário dos Sonhos?

- Mas quem é afinal o psicólogo aqui? Estás a questionar os meus conhecimentos?

- Não, eu vou comprar fruta logo que saia daqui.

- Óptimo, já que vais à mercearia podias também comprar-me umas coisas, dou-te já lista – levantou-se de repente e agarrou num papel amachucado contendo todos os viveres que necessitava.

- Hum… Claro – respondi com um ar incrédulo, enquanto pegava na lista.

- A nível profissional estás num ótimo mês para cimentares futuras conquistas, que poderão dar frutos. Na saúde toma atenção ao coração. Economicamente, terás largas despesas. Emocionalmente, cuidado com os amigos, algum deles pode querer roubar-te.

- Como sabes isso tudo só através do meu sonho?

- É o que diz o horóscopo desta semana para aquário, achei que gostarias de saber.

Fiquei desconfiado com este método terapêutico, mas não o quis contrariar. Fez várias questões relacionadas com os meus hábitos diários e depois finalmente tocamos na questão que me trazia ali.

- Sabes, tenho escrito uns artigos meio surrealistas e bizarros.

- Escrever não é comigo, mas porque é que não tomas um paracetamol?

- Acho que não vai adiantar de muito.

- Bem, esta consulta já vai longa.

- Mas só cheguei há 20 minutos.

- Pois, tal como eu dizia. Estás a dever-me 40 euros da consulta.

Eu paguei-lhe meio aturdido com aquela afronta e encaminhei-me para a porta. Rodei a maçaneta e nesse momento uma questão abalou o meu pensamento.

- Relembra-me só em que universidade fizeste o curso?

- Em Harvard.

- Foste ao Estados Unidos, isso é impressionante.

- Já ouviste falar de Internet e de cursos online? Realmente em que mundo vives? Aproveitei este estado de quarentena para me formar e valeu bem a pena. Nem sei porque é que andas a sair de casa no meio desta confusão.

- Ah!

Já ia a meio das escadas do prédio, quando o jovem psicólogo me gritou lá do alto.

- E não te esqueças de ir à mercearia buscar-me o que te pedi.


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