João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

O coração que canta

Francisco José, mais conhecido por ter dado voz à canção Olhos Castanhos, foi um extraordinário cantor romântico, a tal ponto que chamaram-lhe O Coração que Canta. De fato, ninguém suspeitaria que aquele rapaz que, um dia, se apresentou em público no Teatro Garcia de Resende para cantar num baile de finalistas de liceu, viesse a conhecer dali a pouco tempo um êxito estrondoso.

O cantor nasceu em Évora, corria o ano de 1924, e a sua carreira artística teve início em 1948 no Centro de Preparação de Artistas de Rádio, onde foi uma revelação. O que o levou a abandonar o curso de Engenharia Civil, quando estava no terceiro ano e já trabalhava no LNEC. Fê-lo contra a vontade da família, mas depressa se mostrou que havia sido uma decisão acertada. Quase da noite para o dia tornou-se num dos intérpretes mais populares da Emissora Nacional, muito devido à entoação da sua voz, vigorosa, a transbordar sentimento, num modo muito especial de interpretar os poemas das músicas. Como romântico que era, as suas canções exaltavam o amor, levando ao arrebatamento sentimental, na obsessão do amado, e principalmente, na sublimação da mulher.

Na década de cinquenta do século passado conheceu grande êxito, mas a fama chegou em 1961 com a edição de Olhos Castanhos, tema que ainda hoje é de imediato associado ao seu nome. Esta balada conseguiu o feito de vender mais de um milhão de discos, e catapultou o seu intérprete para o outro lado do Atlântico. Assim, para Francisco José, o Brasil converteu-se mesmo no país irmão porque o acolheu de braços abertos. Não demorou muito até ele adquirir o estatuto de estrela da canção, tornando-se no cantor português mais popular de todos os tempos no Brasil, país que acabaria por escolher para viver e onde residiria até princípios da década de oitenta.

Ainda em 1961, lança o seu principal trabalho discográfico, intitulado A Figura de Francisco José. Gravado precisamente no Brasil, no Rio de Janeiro, este álbum tem como subtítulo Sucessos de Portugal e inclui outros êxitos do cantor, tais como Quatro Palavras, Doido Sim Mas Não Louco ou Como é Bom Gostar de Alguém. Num texto publicado na contracapa deste registo fonográfico, pode ler-se o elogio sobre a classe interpretativa de Francisco José, a qual, nunca é demais repetir, tinha por base uma pronúncia límpida e segura.

Em 1964, numa emissão da televisão pública portuguesa, queixou-se em tom de crítica que aquela estação favorecia os artistas estrangeiros, em detrimento dos nacionais. O incidente valeu ser-lhe movido um processo, mas que resultaria em nada.

Na década de setenta alcançou outro sucesso monumental com a canção Guitarra Toca Baixinho, a qual não era mais que uma versão de uma outra de origem italiana, intitulada Chitarra Suona Più Piano. Mas nas suas atuações ao vivo regressaria sempre aos êxitos das décadas de cinquenta e sessenta. Como já referimos, no princípio dos anos oitenta deixou o Brasil e voltou a Portugal, onde iria fixar-se até à data da sua morte em 1988. Em 1983 é lançado o seu último disco, o single As Crianças Não Querem a Guerra. Ainda teve tempo para exercer outras atividades, tendo leccionado na Universidade da Terceira Idade, em Lisboa, pois entretanto concluíra o curso de Matemática.

Como cantor, o seu nome fica ligado a grandes êxitos como Olhos Castanhos, Maria Morena, Encontro às Dez, Estrela da Minha Vida, Eu e Tu, e pela sua excecional qualidade interpretativa merece ser sempre recordado.

 


NESTA SECÇÃO

Marmelada de marmelos

Nos manuscritos da infanta D. Maria podemos encontrar a seguinte receita: “marmelada de Xime...

Se queres diferente, não votes igual

Não fiques preso ao passado. Eu gosto de dizer que as eleições autárquicas são muito par...

O mundo dos cogumelos aqui na vila

Cristiano Carter e Adriana Afonso, dois jovens do concelho da Batalha, criaram em 2019 a Min...