Francisco André Santos

Diacrónicas

O Co-domínio

Explicou-me Castells no outro dia que a criação de uma “comuna” é em si mesmo uma revolução do ponto de vista urbano. Eleva, através da prática, um projeto coletivo de redefinição da cidade e dos seus processos de consumo coletivo. Portanto, uma comunidade intencional, isto é, um grupo de pessoas com as mesmas intenções, têm a capacidade de se organizar de maneira diferente, tal como uma comunidade de circunstância tem a capacidade de se organizar de maneira diferente.

Explico esta capacidade de organizar como resposta à apatia do condomínio, que ora por circunstância ou intenção, ocasionalmente traz um grupo de pessoas que vivem na mesma massa de cimento, a uma sala que eu suponho ser igualmente entediante. Neste (des)privilégio de nunca ter participado numa reunião de condomínio, acredito que fazem atas, um pouco como no parlamento, que traçam rivalidades, como no parlamento, e discutem o preço da gestão do condomínio… como no parlamento? Talvez, seja até um pouco mais à frente do que o parlamento. Noto que neste fórum é usual praticar aquilo que os intelectuais desses novos partidos chamam “democracia líquida”. Com a sua licença, eu traduzo: “Ó Agostinho, tu que percebes mais desses assuntos, podes votar por mim lá na reunião?”

Ainda assim, convém não faltar. E assim, transforma as circunstâncias em intenções. O número 23 da rua anónima pode passar a ser o “Prédio do Vasco” ou a “Casa Maria Albertina”. Podemos ir de modas e apelidar o “pátio da Vanessa”. Por outras palavras, algo que se goste e que se estime. “Por decreto dos moradores do número 23 da Rua Anónima, o lote é por daqui a diante proclamado como Prédio do Pica-pau Amarelo.” Oh! Surge-me até a ideia de um intercâmbio dessas novas peças de arte espalhadas pelos halls de entrada desses novos bairros. Que a arte também more aqui! E que tal como não deverá faltar cerveja numa república de estudantes, porque faltaria arte entre a tão boa gente do seu prédio?

Já pensou no seu “Vizinho da Cultura”? E que tal um “Vizinho da Energia”. Tantas vezes ignoramos aquilo que podemos partilhar. Se o seu vizinho o inferniza com a sua prática musical, porque não infernizar os outros vizinhos também, a partir da sua sala de estar? Poderia também encarregar o seu vizinho a planear um prédio mais sustentável. Novamente, desde a sala de estar, observamos e comentamos as notícias em vez de ligarmos aquilo que é mais importante e que está à nossa volta. “Noticias que podemos usar” seria saber da nova parafusadora do vizinho, ou da bimby da vizinha, que tanto jeito dava para compor o aniversário da pequerrucha. Talvez não teria de deixar o gato com o primo que mora no outro lado da cidade sempre que vai de férias, agora que sabe que o vizinho é ativista do partido dos animais.

Veja essa sua rua em festa! Essa confederação de vizinhos está muito mais perto de si do que Costa na televisão. Poderá a rua ser de quem a celebra? Happy streets – ruas felizes, é um modelo para experimentar com o seu bairro. Como é típico nos dias da cidade, poderão os vizinhos cortar o transito na sua própria rua? Volto a imaginar: um campo de futebol do número 4 ao 70 da Rua Anónima; um show dos mais pequenos da escola de dança do bairro, no hall de entrada do Prédio do Pica-pau Amarelo, seguido de uma aula de zumba; e uma aula de história do senhor de óculos garrafais que se faz acompanhar por um livro no parque; as vizinhas, que o cruzam quando ajudam no jardim, oferecem flores aos transientes pois lembram-se de lhes oferecerem cravos à alguns anos atrás. A rua parece-lhe feliz? Já conhece as suas personagens?

Na esperança de que não seja a Assunção Cristas do seu Jerónimo de Sousa, e para reverter esse meu desprivilegio, partilharia este artigo com o seu co-domínio? Tem todo um prédio à sua espera!


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